Procurava na bolsa a chave do carro. De nada adiantou colocar dois chaveiros, se a bolsa era grande daquele jeito - e a chave era jogada com tal displicência que sempre escorregava para o fundo, para o lugar mais inatingível pelas mãos apressadas. Encostou-se no carro e jogou a bolsa sobre o capô. Vontade de jogar tudo que as mãos tateavam e que não era o que procurava no chão. Inquieta, ficava incomodada com os olhares questionadores do passantes. Sentia-se impelida a quase justificar o motivo da demora, da procura. Sorria, como se buscasse compreensão.
Puxou! Entrou rapidamente e, antes de dar partida, assusta-se com duas batidas no vidro. Não teve tempo de reagir: apenas olhou e lá estava ele. Não queria o encontro àquela hora. Teve tempo de pensar: estou bem? Meus cabelos? Engordei desde a última vez que nos vimos?
Desajeitadamente tentou abrir a porta, e o gesto o assustou. Segundos intermináveis! Ele se afastou um pouco, esperou que ela descesse. Foi então que ela teve tempo de pensar que, por todo esse tempo, ele manteve um sorriso autêntico nos lábios. Acalmou-se.
Trocou dez ou doze palavras dessas que se trocam entre pessoas que não se veem há tempos. Depois, imaginou que devia estar corada, sentia-se assim. Ele continuou a perguntar sobre banalidades, amenidades. Ela respondia anestesiadamente. Tentou calcular uma resposta melhor. E notou que as perguntas tornavam-se cada vez mais banais. Ele quer realmente saber isso ou só está fazendo rodeios para algo mais?
Sentiu-se confusa.
Talvez cinco minutos tivessem se passado, ele se despediu, reforçando o convite para sábado. A turma toda iria (safety net?).
Ela sorriu, achou bonitinho.
Ficou vendo aquele moço bonito atravessar a rua e entrar no carro. Entrou no seu e foi embora.
Encontraram-se várias vezes depois disso, sempre com sorrisos nos lábios e amenidades nas conversas. O que se alterava era a vontade de ter o que falar para ele.
Certa vez ficaram a sós.
E, desde então, nunca mais foram sozinhos.
sábado, 17 de dezembro de 2011
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Idolatria - ou - Oscar Wilde reloaded
O dia havia sido nublado. Sentiu por toda a tarde dores fortes de estômago. Ânsia. Uma ducha fria seria o remédio.
Entrou no quarto depois do banho. Havia se enxugado com cuidado, delicadamente. E partia para o ritual de se admirar. Era o seu maior admirador. Narciso moderno.
Eis que a dor ressurge. Gosto de bile. Olhou-se no espelho e viu tudo aquilo que se esforçou para não ver. Anos de adulação barata, tentativas de terapia e busca de equilíbrio com a natureza não o impediram de ver a escória que representava.
Aquela imagem ali, diante de si, era o avesso do perfeito. A corrosão moral, as sucessivas mentiras ao pé do ouvido, os fins que justificavam os meios.
Angustiado, buscou escapar daquele olhar desnudo que agora se voltava para a imagem pobre e imperfeita. Teve asco.
Não foi um arrependimento, pois se julgava esperto demais para sequer supor ter feito algo errado. Não havia, aliás, certo e errado no que fazia: havia o que queria e o que não queria.
Não conseguia mais evitar: via agora o fruto do meio, corrompido, determinado por ele. Vítima e algoz, paradoxalmente. Escravo do pensamento alheio, acumulador de conquistas vazias, agente do prazer pelo prazer. Um parnasiano.
Não conseguia desviar os olhos. Tornara-se um borrão.
Tontura. Não enxergava mais nada.
Acordou sabe-se lá quanto tempo depois.
A primeira sensação foi a do chão frio. Moveu lentamente os braços, buscou apoio. Aos poucos, pôde levar as mãos até a parede, buscando equilíbrio para se levantar. A visão ainda embaçada.
Diante do mesmo espelho, olhou-se. De repente, não podia mais se enxergar: via Dorian Gray.
Então percebeu.
Entrou no quarto depois do banho. Havia se enxugado com cuidado, delicadamente. E partia para o ritual de se admirar. Era o seu maior admirador. Narciso moderno.
Eis que a dor ressurge. Gosto de bile. Olhou-se no espelho e viu tudo aquilo que se esforçou para não ver. Anos de adulação barata, tentativas de terapia e busca de equilíbrio com a natureza não o impediram de ver a escória que representava.
Aquela imagem ali, diante de si, era o avesso do perfeito. A corrosão moral, as sucessivas mentiras ao pé do ouvido, os fins que justificavam os meios.
Angustiado, buscou escapar daquele olhar desnudo que agora se voltava para a imagem pobre e imperfeita. Teve asco.
Não foi um arrependimento, pois se julgava esperto demais para sequer supor ter feito algo errado. Não havia, aliás, certo e errado no que fazia: havia o que queria e o que não queria.
Não conseguia mais evitar: via agora o fruto do meio, corrompido, determinado por ele. Vítima e algoz, paradoxalmente. Escravo do pensamento alheio, acumulador de conquistas vazias, agente do prazer pelo prazer. Um parnasiano.
Não conseguia desviar os olhos. Tornara-se um borrão.
Tontura. Não enxergava mais nada.
Acordou sabe-se lá quanto tempo depois.
A primeira sensação foi a do chão frio. Moveu lentamente os braços, buscou apoio. Aos poucos, pôde levar as mãos até a parede, buscando equilíbrio para se levantar. A visão ainda embaçada.
Diante do mesmo espelho, olhou-se. De repente, não podia mais se enxergar: via Dorian Gray.
Então percebeu.
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