segunda-feira, 25 de abril de 2011

Oscar Wilde's way of life - ou - O que a releitura de 'O retrato de Dorian Gray' fez comigo

Em duas manhãs de sol à beira-mar, reli "O retrato de Dorian Gray", doze anos depois. Da primeira vez, lembro-me de que fiquei fascinada com o enredo bizarro e filosófico. Coisa de primeiroanista de Letras, unespiana, adolescente ainda, maravilhada com as aulas de Teoria da Literatura. Comparações e contraposições com Rousseau, com Taine, com Realismo e Determinismo. Desenvolvi, depois disso, um encanto inquestionável por Oscar Wilde: suas frases cínicas e fortes, sua criticidade, seu jeito dândi, seu manejo singular com as palavras (sim, porque li trechos no original, em inglês). Li outras coisas dele, mas nada que se comparasse ao seu único romance.
Ganhei, cinco anos depois de ler pela primeira vez, um exemplar de aniversário - um de muitos livros que, carinhosamente,  meu namorado me deu. Confesso que comecei a releitura por diversas vezes, mas sempre a abandonava em virtude de alguma outra leitura profissionalmente necessária. Eis que, neste final de semana de Páscoa, ressuscitou-me a ideia de reler a obra. Coloquei-a na bagagem e, confesso: decisão acertadíssima.
Desta vez, chamou-me mais a atenção os aforismos wildeanos embutidos nas falas de Dorian, de Lorde Henry, de Basil. Personagens singulares, muito bem moldadas, exemplares perfeitos do que eu imagino ser a sociedade inglesa (ou do que Oscar quer que eu imagine). Enredo em segundo plano, pude saborear cada pensamento, toda delicadeza e, paradoxalmente, aspereza dos dizeres. Que eficiência em criar tipos sociais tão ricos! Quanta nobreza em expor as transformações deterministas pelas quais o ser em sociedade se submete a fim de se adaptar! Que confusão de sensações me proporcionou a simples (?) re-leitura de um romance.
Aprendi com Oscar Wilde que a vida é feita de riscos e que as imperfeições humanas são, seguramente, as particularidades que tornam os seres mais interessantes. Há tantas frases do livro soltas nos sites de busca, grandiosas, tantas verdades cruéis. Tantos Dorians pelo mundo.
Fechei o livro e meu primeiro pensamento foi: meu nome está escrito no túmulo de Oscar Wilde, no cemitério de Père-Lachaise. Eu me rendi à vontade de fã e deixei meu nome, meu apreço e um beijo lá, como no curta do "Paris, te amo". E dito isso, nada mais pode ser acrescido, a não ser que a vida, de fato, imita a arte, e vice-versa.

domingo, 17 de abril de 2011

A sacrassaga - ou - Neologismos à flor da pele - ou ainda - Eu, cubista.

Quando o Guimarães Rosa não conseguia exprimir o que estava sentindo, pensando ou criando com palavras da nossa tão vasta e cansativa língua portuguesa, dava-se ao luxo de criar verbetes. E, claro, como possuía conhecimento de mais ou menos vinte outras línguas, misturava tudo. Num samba de crioulo doido, inventou "Sagarana", por exemplo.
Pois eu estou criando palavras, pensamentos e sensações usando o mesmo princípio. Se não há como explicar, cria-se outra coisa. Se não há nada que satisfaça, mistura-se para criar uma outra coisa. A fórmula parece algo cubista, e de fato, com o uso que faço, é. Cubismo linguístico para Guimarães, cubismo sentimental para mim.
Várias perspectivas sobre uma mesma imagem levam à sobreposição e recriação, uma nova visão. Pois eu, neste final de semana, tornei-me cubista. Adquiri novas visões sobre as mesmas coisas, pura e simplesmente porque mudei o ângulo de visão. Olhar o mesmo com olhar novo, distanciado até.
Nunca imaginei que Guimarães Rosa e Picasso pudessem ser tão assimetricamente parecidos. E eu, no meio dessa comparação, criando novos sentimentos em relação às mesmas pessoas de sempre.
Bom (re)ver conceitos. Melhor ainda reforçar, ratificar o "quem sou eu". Os orientais, ironicamente, acreditavam que, às vezes, é preciso dar uma passo para trás para poder dar dois para frente, depois.
Pois então: misturei o que já sentia, o que passei a sentir e o que gostaria muito de sentir e criei um novo sentimento. Batizei-o de... (preciso criar um nome).

terça-feira, 12 de abril de 2011

A arte do não-compreender - ou - De novo, Clarice?

Eu sei toda a teoria, mas a prática é tão distante! Por que eu fico tentando entender? Sábia Clarice que deixou pro mundo o legado do viver sem se preocupar com o entendimento.

domingo, 3 de abril de 2011

Simplificando, para complicar - ou - A melhor tecnologia de todos os tempos da última semana!

Eu aderi ao Twitter. Tudo muito confuso, isso de ficar resumindo dizeres e pensamentos. Um símbolo dessa geração sedentária mental. Preguiça galopante de pensar. E de ler, sobretudo. Mas eu aderi. Preciso conhecer, saber, entender - antes de continuar criticando.
Há vantagens. A receptividade, por exemplo: bem maior por lá. Outra: várias pessoas interessantes, mesmo!
Para o bem e para o mal, eis o microblog.
Eu sempre me lembro do Oswald de Andrade quando me meto nesses assuntos de tecnologia. Ele e sua turma eram os maiores entusiastas da tecnologia e do Futurismo, porque acreditavam que a máquina - substituindo o homem - deixaria tempo disponível para que as pessoas pudessem se dedicar a outras coisas, aos prazeres, à arte. Ledo engano. O homem ficou escravo da máquina, e a preguiça começou a reinar - porque o tempo livre foi usado para o ócio improdutivo.
O Domenico de Masi tentou até achar um jeito de retomar (indiretamente, claro) essa ideia, elaborando teorias do "ócio criativo", mas era tarde demais. O ser humano do século XXI é, por excelência, acomodado. Quer tudo pronto/semipronto, mastigado, prático. E, ao meu ver, o crescimento dos microblogs também é retrato disso. Por que me desfazer em palavras, se posso me resumir em 140 caracteres?
E não adianta vir me falar que tem muita gente lendo hoje em dia, porque não vou aceitar estatística que envolva a saga Crepúsculo, livro do Padre Fábio de Melo, do Augusto Cury ou algo que pode ser lido em horas e tenha aquele gosto de "eu te conheço?".
Escrevo, agora, lá e aqui. Aguardemos por cenas dos próximos capítulos...