Em duas manhãs de sol à beira-mar, reli "O retrato de Dorian Gray", doze anos depois. Da primeira vez, lembro-me de que fiquei fascinada com o enredo bizarro e filosófico. Coisa de primeiroanista de Letras, unespiana, adolescente ainda, maravilhada com as aulas de Teoria da Literatura. Comparações e contraposições com Rousseau, com Taine, com Realismo e Determinismo. Desenvolvi, depois disso, um encanto inquestionável por Oscar Wilde: suas frases cínicas e fortes, sua criticidade, seu jeito dândi, seu manejo singular com as palavras (sim, porque li trechos no original, em inglês). Li outras coisas dele, mas nada que se comparasse ao seu único romance.
Ganhei, cinco anos depois de ler pela primeira vez, um exemplar de aniversário - um de muitos livros que, carinhosamente, meu namorado me deu. Confesso que comecei a releitura por diversas vezes, mas sempre a abandonava em virtude de alguma outra leitura profissionalmente necessária. Eis que, neste final de semana de Páscoa, ressuscitou-me a ideia de reler a obra. Coloquei-a na bagagem e, confesso: decisão acertadíssima.
Desta vez, chamou-me mais a atenção os aforismos wildeanos embutidos nas falas de Dorian, de Lorde Henry, de Basil. Personagens singulares, muito bem moldadas, exemplares perfeitos do que eu imagino ser a sociedade inglesa (ou do que Oscar quer que eu imagine). Enredo em segundo plano, pude saborear cada pensamento, toda delicadeza e, paradoxalmente, aspereza dos dizeres. Que eficiência em criar tipos sociais tão ricos! Quanta nobreza em expor as transformações deterministas pelas quais o ser em sociedade se submete a fim de se adaptar! Que confusão de sensações me proporcionou a simples (?) re-leitura de um romance.
Aprendi com Oscar Wilde que a vida é feita de riscos e que as imperfeições humanas são, seguramente, as particularidades que tornam os seres mais interessantes. Há tantas frases do livro soltas nos sites de busca, grandiosas, tantas verdades cruéis. Tantos Dorians pelo mundo.
Fechei o livro e meu primeiro pensamento foi: meu nome está escrito no túmulo de Oscar Wilde, no cemitério de Père-Lachaise. Eu me rendi à vontade de fã e deixei meu nome, meu apreço e um beijo lá, como no curta do "Paris, te amo". E dito isso, nada mais pode ser acrescido, a não ser que a vida, de fato, imita a arte, e vice-versa.
Nota intertextual: há uma música do Keane que eu adoro, chamada "The frog prince". Parece escrita para Dorian Gray!
ResponderExcluirLendo postagens mais antigas, principalmente as de janeiro, e achando particularmente engraçadas.
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