segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

“Peixe Grande” - ou - O que existe no que não é dito

Desde que vi “Peixe Grande”, fiz as pazes com a imagem que tinha do meu pai. Em essência, ele é aquele: cheio de histórias, que acredita num mundo que não acredita nele. De um amor demonstrado pelo serviço, pelo cuidado. Raramente falado. Mas sentido em cada gesto. De uns anos para cá, o respeito pela mulher que me tornei. Sem idealizações de ambos os lados: eu fumo um cigarro ao lado dele, que odeia o fato de eu fumar, mas falamos das coisas dele como se eu fosse uma confidente - embora sempre haja o desejo velado dele de que eu volte a vê-lo como herói (o que nunca vai acontecer). Como eu o vejo hoje é mais real, mais verdadeiro: um homem idealista, cheio de projetos frustrados, com um coração maior do que o mundo merece, mas que eu amo justamente por isso. Por nunca desistir do mundo. Por não desistir de ser admirado. Seria mais fácil se ele entendesse que a admiração não precisa dos seus grandes gestos, dos seus projetos sendo bem sucedidos. O fato de ele ter sido sempre um pai excepcional deveria valer. Ele me transformou na mulher que eu sou. Minhas qualidades são todas dele (os defeitos, todos da minha mãe). E essa angústia de vê-lo não entender machuca um pouco. Mas seguimos pensando que não haverá despedida: ele será imortal, e eu sempre poderei contar com a existência dele fazendo o mundo ser um lugar possível de acreditarmos. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Latifúndio - ou - Sem diagnóstico

O sol de praia invade o sono pela fresta da cortina que nunca se fecha totalmente. O primeiro pensamento é sempre de “perdi hora?”. Dormiu pensando nas mil coisas a fazer do dia seguinte. Acorda letárgica e faz o café enquanto olha as unhas compridas e sempre por fazer. A bolsa a caminho do trabalho sempre cheia. Escadas demais durante o dia. Cumpre tarefas com orgulho. Cigarros. Nunca sabe como sujou tanto as lentes dos óculos. Sorrisos cheios de dentes.
Internet lenta. Tranca a porta e sai. 
O dia passa com mil tarefas resolvidas e mil outras a resolver. Um latifúndio de trabalho. Entre uma fresta e outra de pensamentos, aquilo. O que não entende. O que está sem estar. Sem diagnóstico. 

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Encore un sour - ou - Playlist

Ninguém é totalmente livre. Aquelas músicas que sempre se relacionam a alguém, a alguma experiência. A letra. A música que tocou bem naquela hora. Aquela música que diz tudo o que você queria dizer e não teve oportunidade. Aquela música que você dedicou a alguém. Aquela música da playlist das primeiras vezes. Tantas palavras não ditas. Tão “Futuros amantes”. Tão “Um girassol da cor de seu cabelo”. Tão “Let me Love you”. Tão... 
Talvez tenha sido pouco. Talvez tenha sido em vão. Músicas fantasmas. Assombrações do talvez. 
Que passe. Que ressignifique. 

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Porquinho Da Índia - ou - sobre o não estar

“Você já viu ‘O poeta do castelo’?”, foi a pergunta que o PEB atencioso fez. Já tinha visto, mas não se lembraria disso até rever. Chegou em casa, procurou no YouTube. Assistiu de novo. Ficou pensando nas aulas de Literatura. Já foi uma boa professora. Interpretava as obras de vestibular, falava com amor. Falou tantas vezes do “Libertinagem”. Sentiu saudade e dormiu.
Dias se passaram. Trabalhou muito, comeu muito, bebeu um pouco, saiu. Beijou, transou, acreditou.
Ficou pensando naquele poema do porquinho-da-índia. Era isso. 
De repente, alguns pensamentos fantasmas do passado. Era isso. 
Não sabe jogar num mundo de jogadores. 
A vida, minha filha, é respiro, pisco, crença e conta. Mas é linda. Sigamos. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

AmarElo - ou - Backup

Desconstruidona da porra, ela. Agora. Até que veio a tentativa de backup. 
Quis comprar um celular novo. O último modelo não cabia no orçamento, mas escolheu um bem legal. Aparência similar, mesmo tamanho - quase autista. Queria o backup de tudo - bem autista. Muda para o novo e carrega tudo. Significativo, isso.
Por essas coisas do destino, descobriu que não fazia backup do celular desde 2017. Então apertou o enter: que o backup comece. 
Muitas horas depois, quase dias, nada de dar certo. Backup pela metade. Resolveu puxar só o essencial, ou menos do que isso - ansiedade pela troca. 
O celular usado, como sempre, passaria a ser da mãe. Restava apagar tudo. 
Tentou fazer do jeito convencional: salvar tudo na nuvem e restaurar. Por essas coisas do destino, não conseguiu. Horas tentando e nada.
Cansada, limitou-se a tentar novamente no fim de semana. E foi aí. O momento.
Enquanto buscava o sono, resolveu mexer em arquivos antigos. Caçou o contato. Releu mensagens de WhatsApp. Durante a leitura, uma sensação esquisita, desconforto. Não era reviver: era ver. 
Sentiu-se como Miguilim, colocando os óculos pela primeira vez. De início, estranhamento. Viu-se de fora. Não perdeu a imagem de quem viveu, mas conseguiu se afastar o suficiente para ver o drama, os exageros, os erros. Sem culpar. Só viu. Pensou em tudo que poderia ser diferente se ela vivesse as mesmas coisas hoje. 
Refletiu: fez o que conseguiu com o que tinha, com o que era. E era isso: o melhor que conseguia fazer. 
Sentiu um orgulho bem grande por ter conseguido ter uma visão autocrítica não destrutiva. Com empatia racional, talvez. 
Agridoce: tanto orgulho do crescimento, tanta angústia por ter perdido algo incomparável. 
Resolveu respirar, tentar dormir.
Ainda não fez backup.
E o que fazer com esse backup? Esse oposto de “Brilho Eterno”?

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

De volta - ou - “O sol há de brilhar mais uma vez”

Eu fiquei muito tempo em coma. Induzido. Necessariamente. Um processo de cura, desintoxicação, autoconhecimento. Aquele clichê da lagarta e da borboleta, bem barato, é real. Curioso que estou borboleteando há tempos. Mas quis voar bastante antes de pousar e relatar. E vi coisa demais. Então, resumindo, por hoje digo que existe vida depois do caos. E ela é ótima, em muitas medidas.
Ironicamente, passando por outra renovação. Sem necessidade de coma induzido, dessa vez. Desafios profissionais, crescimento espiritual, equilíbrio psicológico, outras visões do amor. amor assim, sem maiúscula alegorizante, porque sim. Depois das decepções, todas as maiúsculas perderam o sentido. Talvez muitas minúsculas sejam mais significativas do que uma maiúscula destruidora, alfa. Ou não. Talvez só fosse a maiúscula errada. Talvez só fosse a alegoria errada.
Aprendendo e vivendo - e vice-versa.
Mas me admirando para caralho.
(Vai ter palavrão a partir de agora).
Volto logo. Vou borboletear.

terça-feira, 20 de junho de 2017

"Ainda há tempo" - ou - O insustentável peso do ser

Criolo disse que "as pessoas não são más, elas só estão perdidas. Ainda há tempo".
Há?

Aquele medo de o outro te olhar e te ver como você teme ser vista. Aquela sensação de ser nada ou quase nada. Aquela culpa que sempre te acompanhou. Aquela sensação de não merecer nada bom - porque seres pequenos e incompletos não merecem nada bom mesmo...

Pela janela, a um dia do inverno. Ao redor, bagunça de quem se sabota. Por dentro, só tristeza.

Não enxerga nada bom em si mesma? Não compreende o que faz? Não consegue manter o que faz feliz? Aquelas palavras duras são merecidas?

Não é questão de estar desconexa. É de saber que se iludiu - consigo mesma, especialmente.

Querer ser, querer ter o que julgava merecer...

"Você é um monte de farelos ambulante". "Você é exagerada". "Você não entende nada". Pensamentos fantasmas, esses.

Pesada, quando queria ser leveza. Olhar nos olhos e se enxergar tão menor. Não saber nunca expressar o que sente. Incompetente.

O espelho me chama de velha. Eu não tenho forças para discordar.

Ver tudo o que sempre quis se desfazer.

Entrega é isso: perder o chão.

Perdi...