segunda-feira, 27 de dezembro de 2021
“Peixe Grande” - ou - O que existe no que não é dito
Desde que vi “Peixe Grande”, fiz as pazes com a imagem que tinha do meu pai. Em essência, ele é aquele: cheio de histórias, que acredita num mundo que não acredita nele. De um amor demonstrado pelo serviço, pelo cuidado. Raramente falado. Mas sentido em cada gesto. De uns anos para cá, o respeito pela mulher que me tornei. Sem idealizações de ambos os lados: eu fumo um cigarro ao lado dele, que odeia o fato de eu fumar, mas falamos das coisas dele como se eu fosse uma confidente - embora sempre haja o desejo velado dele de que eu volte a vê-lo como herói (o que nunca vai acontecer). Como eu o vejo hoje é mais real, mais verdadeiro: um homem idealista, cheio de projetos frustrados, com um coração maior do que o mundo merece, mas que eu amo justamente por isso. Por nunca desistir do mundo. Por não desistir de ser admirado. Seria mais fácil se ele entendesse que a admiração não precisa dos seus grandes gestos, dos seus projetos sendo bem sucedidos. O fato de ele ter sido sempre um pai excepcional deveria valer. Ele me transformou na mulher que eu sou. Minhas qualidades são todas dele (os defeitos, todos da minha mãe). E essa angústia de vê-lo não entender machuca um pouco. Mas seguimos pensando que não haverá despedida: ele será imortal, e eu sempre poderei contar com a existência dele fazendo o mundo ser um lugar possível de acreditarmos.
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