sábado, 17 de dezembro de 2011

Você também - ou - Aquela primeira vez

Procurava na bolsa a chave do carro. De nada adiantou colocar dois chaveiros, se a bolsa era grande daquele jeito - e a chave era jogada com tal displicência que sempre escorregava para o fundo, para o lugar mais inatingível pelas mãos apressadas. Encostou-se no carro e jogou a bolsa sobre o capô. Vontade de jogar tudo que as mãos tateavam e que não era o que procurava no chão. Inquieta, ficava incomodada com os olhares questionadores do passantes. Sentia-se impelida a quase justificar o motivo da demora, da procura. Sorria, como se buscasse compreensão.
Puxou! Entrou rapidamente e, antes de dar partida, assusta-se com duas batidas no vidro. Não teve tempo de reagir: apenas olhou e lá estava ele. Não queria o encontro àquela hora. Teve tempo de pensar: estou bem? Meus cabelos? Engordei desde a última vez que nos vimos?
Desajeitadamente tentou abrir a porta, e o gesto o assustou. Segundos intermináveis! Ele se afastou um pouco, esperou que ela descesse. Foi então que ela teve tempo de pensar que, por todo esse tempo, ele manteve um sorriso autêntico nos lábios. Acalmou-se.
Trocou dez ou doze palavras dessas que se trocam entre pessoas que não se veem há tempos. Depois, imaginou que devia estar corada, sentia-se assim. Ele continuou a perguntar sobre banalidades, amenidades. Ela respondia anestesiadamente. Tentou calcular uma resposta melhor. E notou que as perguntas tornavam-se cada vez mais banais. Ele quer realmente saber isso ou só está fazendo rodeios para algo mais?
Sentiu-se confusa.
Talvez cinco minutos tivessem se passado, ele se despediu, reforçando o convite para sábado. A turma toda iria (safety net?).
Ela sorriu, achou bonitinho.
Ficou vendo aquele moço bonito atravessar a rua e entrar no carro. Entrou no seu e foi embora.
Encontraram-se várias vezes depois disso, sempre com sorrisos nos lábios e amenidades nas conversas. O que se alterava era a vontade de ter o que falar para ele.
Certa vez ficaram a sós.
E, desde então, nunca mais foram sozinhos.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Idolatria - ou - Oscar Wilde reloaded

O dia havia sido nublado. Sentiu por toda a tarde dores fortes de estômago. Ânsia. Uma ducha fria seria o remédio.
Entrou no quarto depois do banho. Havia se enxugado com cuidado, delicadamente. E partia para o ritual de se admirar. Era o seu maior admirador. Narciso moderno.
Eis que a dor ressurge. Gosto de bile. Olhou-se no espelho e viu tudo aquilo que se esforçou para não ver. Anos de adulação barata, tentativas de terapia e busca de equilíbrio com a natureza não o impediram de ver a escória que representava.
Aquela imagem ali, diante de si, era o avesso do perfeito. A corrosão moral, as sucessivas mentiras ao pé do ouvido, os fins que justificavam os meios.
Angustiado, buscou escapar daquele olhar desnudo que agora se voltava para a imagem pobre e imperfeita. Teve asco.
Não foi um arrependimento, pois se julgava esperto demais para sequer supor ter feito algo errado. Não havia, aliás, certo e errado no que fazia: havia o que queria e o que não queria.
Não conseguia mais evitar: via agora o fruto do meio, corrompido, determinado por ele. Vítima e algoz, paradoxalmente. Escravo do pensamento alheio, acumulador de conquistas vazias, agente do prazer pelo prazer. Um parnasiano.
Não conseguia desviar os olhos. Tornara-se um borrão.
Tontura. Não enxergava mais nada.
Acordou sabe-se lá quanto tempo depois.
A primeira sensação foi a do chão frio. Moveu lentamente os braços, buscou apoio. Aos poucos, pôde levar as mãos até a parede, buscando equilíbrio para se levantar. A visão ainda embaçada.
Diante do mesmo espelho, olhou-se. De repente, não podia mais se enxergar: via Dorian Gray.
Então percebeu.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Compasso - ou - Durante

Fones de ouvido. Tênis de corrida (mas não vai correr). Calça de ginástica. Blusa regata. Óculos de sol. iPod em modo aleatório. Sai.
Pensa naquele filme com o Mel Gibson: campanha da Nike, mulher correndo sozinha, a pista é sua companheira. E se sente uma personagem de campanha da Nike.
Pensa no trabalho, nas coisas que deixou por fazer - nunca tem tempo de terminar tudo o que tem para fazer do trabalho. Pensa nas barbaridades que tem ouvido no ambiente de trabalho. Nas projeções de promoção. Nas possibilidades. Pisca.
Começa a pensar no amor. Pensa no namorado. Nos anos passados juntos. Nas milhares de fases que passaram juntos. Nas barreiras que um ou outro encontraram. Nas adversidades. Nas muitas risadas. No sexo. Nos planos para o futuro. Nas possibilidades. Pisca.
Um carro buzina para a distraída que surge na frente. Pisca.
Pensa na dieta. Nos vários quilômetros que vai ter que vencer nas caminhadas. Nos litros de água que precisa tomar por dia. Nas barrinhas de cereal que substituem o pãozinho da manhã. Na academia. na calça que voltou a servir. No biquíni que vai ficar bem melhor. Nas possibilidades. Pisca.
A música terrível que começa a tocar - e ela não faz ideia de como foi parar em seus arquivos - pede para ser pulada. Próxima. Ah, aquela música...
Começa a se lembrar do tempo em que ouvia aquela música e amava. E amava a banda. Pensa nas coisas de que gostava e se esqueceu. Pensa na influência que a música tem em sua vida.  No mau gosto que já teve. Nos CDs perdidos. Nos gostos passageiros. Nas novidades apresentadas pelos amigos. Na coletânea que conseguiu formar em anos de adoração.  Na coletânea mais completa conforme os anos e os gostos se aprimoram. Nas possibilidades. Pisca.
Cansada. Mas a sensação de euforia, do caminhar com passos firmes, toma conta dela.
Em casa, a água morna do chuveiro lava um corpo mais cheio de alma. Um corpo cheio de possibilidades.
E, enquanto enxagua os cabelos, pensa que a vida não é o antes, muito menos o depois. É o durante. Pensa que a maior felicidade da vida é ter possibilidades.

domingo, 18 de setembro de 2011

A arte dos malabares - ou - Reinvenção de G.H.

, mas como pode deixar de viver algo que não tinha consciência de viver? E por acaso se deixa algo sem notar que se está deixando? Acaso imaginavam que ela, tão inocente por fazer apenas aquilo que achava certo, tinha como saber que algo podia dar errado?
Entontecida pelo bombardeio de perguntas sem sentido e sem resposta. Não sabia se ia "tocando em frente", como dizia aquela música tão bonita na voz do Almir Sater - ou se tentaria investigar mais aprofundadamente os acontecimentos.
Não. De nada adiantaria. Às favas com a investigação! Que isso se tornasse mais uma das situações com as quais ela aprendera a fazer malabares: sempre jogando para cima, com a esperança de que pudessem flutuar ou sumir, simplesmente. Mas que, impreterivelmente, a gravidade jogava de volta - mesmo quando a sensação de imaginar que o problema estava no ar, e não em suas mãos, parecia reconfortante.
E ela leu Alberto Caeiro, desistiu da metafísica e concluiu que a vida é, de fato, assim:

domingo, 4 de setembro de 2011

Sem aviso - ou - Olhai os lírios do campo

Desde que o samba é samba é assim: as coisas mudam e leva-se tempo para acostumar.
Não foi diferente para ele desta vez. Por um segundo imaginou as coisas sendo como antes. Leveza, calmaria, eu-te-conheço-você-me-conhece. O tempo levando embora segundos muito parecidos com os de ontem. Não contava com ela.
A moça do casaco florido, da boca torta, dos olhos verdes. Ela era não-sei-o-quê, ria alto, olhava com o canto dos olhos, via com as mãos, mexia nos cabelos. Ela desconcertava. Assuntos medianos, estatura idem. Tinha ruga na testa, sobrancelha por tirar.
Mas tinha nome de personagem de romance, leveza de alma, carinha de moleca e uma pintinha na palma da mão. Quem era ela? Quem ela achava que era? Não tinha direito! Entrar sem pedir!
Ele não dorme mais. E está tentando entender. Folheia livros, assiste a filmes, ouve músicas - mas não a entende. Sofre por isso.
Ela o olha e pensa: "Sou Macabéa". Ele a vê e suspira: "Clarissa".

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"Quem mexeu no meu autismo?" - ou - A insustentável defesa do ser

Metalinguagem talvez desnecessária para explicar os títulos de hoje. Dois nomes de livros - um bom, outro ruim, não nessa ordem. "Leveza", não "defesa". Liberdade poética. Porque o assunto aqui é mudança; então mudei até o título do Milan Kindera.
Mudei o layout disto aqui. Ainda não gostei. Não que gostasse demais do outro. Ainda estou em busca de algo melhor - metáfora desses dias, aliás.
Muito eficiente ter que mudar, inclusive, o layout deste espaço; faço faxina em tudo de uma vez. Então, aproveitando a toada de mil mudanças, foi esta também. Combo.
Preciso de um tempo para digerir estas metamorfoses todas, autista que sou. O blog é a menor delas: retomando o trabalho, começando mais uma graduação, ingressando em mais um cargo público, fazendo mais um curso à distância, vivendo escolhas pessoais, limpando gavetas, mudando prioridades, revendo conceitos, teorizando o "inteorizável". Demais.
Sem muitas explicações, para não pirar. Volto depois.
Um toque final: este post foi autobiográfico. Misturo. Geralmente, meus escritos são verborrágicos e ficcionais. Qualquer semelhança é mera coincidência. E tenho dito.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

"Cá com meus botões" - ou - "Escolhas que nos moldam"

Enquanto a mãe costurava, a garotinha mexia nas caixas de botões. Sim, a mãe tinha muitos botões, coloridos, com formatos inusitados e materiais interessantes. Guardava-os em uma caixa cor de rosa. Imaginava que a mãe faria muitas roupas lindas, já que a quantidade e a diversidade de botões era enorme. Brincava de imaginar que tipo de criação deveria receber aquelas pecinhas tão delicadas, coloridas. Deduzia cores, tecidos, modelos, corpos. Notava a destreza com que a mãe pisava no pedal da máquina enquanto manuseava cuidadosamente o tecido sob a agulha.Suas bonecas ganhavam roupinhas de retalhos. Achava bonito ter brinquedo que combinasse com ela.
Cresceu rodeada de alunas de costura, porque acompanhava a mãe no curso. Adorava a mesa enorme em que a Dona Branca reunia todas as pupilas para fazer moldes no papel pardo. Só não gostava do ritual de prender os moldes no tecido com agulhas. Sempre detestou. Não sabia bem por que. Aflição por ver todas com as pecinhas na boca, como se fosse, de fato, necessário o ritual.
Resolveu, certo dia, pôr agulhas na boca e se fingir "mamãe costureira" para fazer os modelitos das bonecas. Gosto gelado, sensação confusa.
Deixou de ter aflição: admirava, a partir disso, a caixa de botões e a de agulhas. Mas não viu função no ritual. Até hoje, não entende.
O tempo passou. A mãe não costura mais - a visão não ajuda. A questão da agulha foi enterrada. Mas por que a fascinação por botões? Por miudezas?
Tentou dar explicações pseudopoéticas: botões, além de úteis, podem embelezar os trajes - como as pequenas coisas embelezam a vida. Não era isso...
Atreveu-se a fazer deduções psicológicas: talvez tivesse algum transtorno, preocupação excessiva com detalhes. Coisa de autismo. Preocupar-se mais com o botão do que com a roupa. Também não era isso.
Por fim, tentou resumir racionalmente: porque, de fato, a mãe comprava botões bonitos, coloridos, chamativos. Qualquer criança acharia diferente.
Independentemente disso, criou uma memória associativa: não importa onde, como, em quem - sempre associa botões diferentes à infância passada ao lado da mãe costureira. Tudo graças às escolhas inusitadas.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A arte do não dizer - ou - E fica assim...

As palavras ficaram presas na garganta, penduradas na língua, escondidas atrás dos dentes. Talvez por não saber escolher, até por não saber ponderar o que pode ou não ser dito. Melindres, muitos.
Não correr o risco de parecer vulnerável além da conta. Não se entregar. Não confessar. Eis outros motivos.
De qualquer forma, ficou o que não foi dito no lugar daquilo que deveria ser gritado.
Se houver, fica para a próxima vez.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O possível e o provável - ou - Todas as impressões ficam

Deitou-se e ficou pensando na vida. Eis que um pensamento tomou conta dos outros: a sutil (mas importante) diferença entre o que é "possível" e o que é "provável". Sabia que não existem sinônimos perfeitos. Mas também sabia que as pessoas usam uma palavra pela outra sem levar em consideração a distância semântica que as separa.
Existem, por exemplo, sonhos possíveis. Que não necessariamente são sonhos prováveis. E vice-versa, é claro. Pensa se prefere o que é possível ou o que é provável. Teima em separar em categorias as escolhas possíveis e as prováveis na vida.
Possível definir? Cansa e resolve dormir. E é bem provável que a dúvida continue.

sábado, 2 de julho de 2011

Lemas árcades- ou - Ostentação para principiantes

Pipocam muitos temas na cabeça. Escolho, a esmo, um: a nova riqueza. O novo rico é, via de regra, alguém que, já tendo sido pobre, vê-se em condições financeiras bem melhores (talvez estáveis) e quer anunciar ao mundo que deixou de passar vontade. Tal atitude costuma vir acompanhada de uma série de exageros e de exibicionismo: é preciso ter tudo o que é novo, caro, badalado e modernoso.
Eis que a matéria é, obviamente, o que se vislumbra do mundo dos já chamados "emergentes" - atuais "diferenciados". A essência, infelizmente, também é corrompida pelo apelo excessivo do ideal de posse/posso. Só os que não fazem parte do tal mundo da nova riqueza - ou os que, independentemente do mundo de origem, possuem sensibilidade intacta para perceber as nuances de comportamento - conseguem perceber que a ação de ostentar está indissociavelmente ligada a algum problema que um bom psicanalista daria cabo em alguns anos de tratamento.
É, no mínimo, muito feio, ostentar qualquer coisa material num mundo capitalista de indiferenças. Estúpido, grosseiro, incoerente, insensato - talvez palavras melhores do que o "feio" da frase anterior.
Mas, como boa unespiana que fui, também sei que o extremo oposto é igualmente ridículo: envergonhar-se do que se conquistou, do que se tem - é de dar pena. Lembro-me de que qualquer um com celular (não importava qual) andando pelo campus nos idos de 2001 era visto como "porco capitalista".
Conclusões deste texto desconexo? Poucas. Só me pergunto se, no tempo de Tomás Antônio Gonzaga, Bocage e Rousseau, os caras do "Aurea mediocritas" e do "Inutilia truncat", quando não existiam novos ricos, a busca pelo equilíbrio parecia tão impossível quanto é hoje.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Falso blasé - ou - No tempo de colégio...

Andando por aí, chutando pedrinhas, arriscando assobios e pensamentos, um pedacinho dela veio à tona. Ah, aquele jeito tímido de olhar sem encarar, tão peculiarmente dela, tão conhecidamente único. Lembrou-se de que a característica que a definia mais costumeiramente entre aqueles que, sobreviventes do passado, puxavam-na na memória era justamente essa: o olhar. A timidez do olhar. Blasé?
Não mudou: lapidou, no entanto. Usa, agora, a grandeza verde-azul com ar de quem se nega a ser desmistificada.
Danada, ela. E nem (ou bem?) sabe o poder que tem.

domingo, 29 de maio de 2011

RSVP - ou - Incompetência social

A moça recebeu com dois meses de antecedência o convite. "RSVP". A sigla intrigou-a. Foi procurar (a ignorância nossa de cada dia foi solucionada com esse tal de Google). Confirmou, então, a presença - era o que pedia a sigla francesa (ela achava fracês tão chique, tão melhor, tão distante dela).

sexta-feira, 20 de maio de 2011

As fronteiras do acaso - ou - Acerca do "se"

Não é possível saber com propriedade se algo que nos acontece é fruto do acaso ou apenas uma sequência matemática possível pelas nossas escolhas. Entretanto, fato é que algumas coisas acontecem no meu coração que nem o Caetano sentiu quando cruzou a Ipiranga com a Avenida São João. Nem ele, nem ninguém. Coisa do grupo dos inexplicáveis.
E eu sou daquelas, infelizmente, que tenta entender. Tsc. Tentar entender é das piores coisas pra alguém que quer ser feliz. Estou na fase do aprender a desaprender: tentando me desapegar da ideia de que tudo deve ter uma explicação plausível. Fase 1.
Engraçado, no entanto, é pensar que certas coisas inesperadas têm me acontecido. Não sei se foram originadas pelas minhas pequenas escolhas cotidianas, se foram traçadas, se previstas pelo bruxo (esta parte pede um post separado, futuro).
Explicando o mito do Édipo Rei para os meus alunos, ouvi a pergunta: "mas será que tudo aconteceu porque era o destino, ou se o fato de saber o futuro direcionou o fim?". A discussão continuou e me fez pensar no acaso, nas previsões, no futuro. As ironias. "A cartomante", do Machado. "A hora da estrela", da Clarice.
Concluo, por enquanto, que há uma fronteira sutil entre o acaso e a escolha.
E se.
Nota metalinguística: post escrito depois de assistir novamente ao filme "Infidelidade".

sábado, 7 de maio de 2011

Incandescências do pensamento - ou - Menina do anel de lua e estrela, do Caetano.

Ela tenta controlar o pensamento enquanto trabalha pesadamente, mecanicamente. Tenta se concentrar no serviço - mas uma centelha de ação paralela rouba-lhe toda a atenção do ostracismo. E ela voa longe. Imagina o que está acontecendo no quarteirão de baixo, rua principal do comércio, gente suando nas dobras dos braços cruzados, crianças enfiando os dedos nos narizes (nos próprios ou uns nos outros, meu Deus?), clientes reclamando dos preços das roupas de inverno. Alguém toca seu braço pedindo informação. Pensa no que vai responder e, depois de satisfazer o curioso, pensa nos motivos que levam alguém a tocar um desconhecido. Pensa em como o toque (ou a falta dele) faz diferença no dia-a-dia. E se lembra da noite anterior, quando sentiu as mãos dele puxando sua cintura.
Ela sonha, e divaga, e imagina, e cria. E ela é feliz com seus pensamentos, com suas projeções.
Sai do trabalho, espera o ônibus e, ao olhar ao redor, imagina a vida dos outros, coloca-se no lugar dos outros. Observa trejeitos, roupas furadas, mal escolhidas, sapatos rotos, olhares opacos. Aquele brigou com a mulher? Bate nos filhos? Ama alguém? A garotinha está desacompanhada de adulto, a uma hora dessas? Estuda? Tem planos para o futuro?
Absorve tudo o que vê, como quem guarda mantimentos para o futuro: o próximo pensamento, o próximo sonho, a próxima vertigem.
Ninguém sabe que, por trás daqueles olhinhos tímidos, há um mundo incandescente de pensamento, fervilhando, ininterruptamente.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Oscar Wilde's way of life - ou - O que a releitura de 'O retrato de Dorian Gray' fez comigo

Em duas manhãs de sol à beira-mar, reli "O retrato de Dorian Gray", doze anos depois. Da primeira vez, lembro-me de que fiquei fascinada com o enredo bizarro e filosófico. Coisa de primeiroanista de Letras, unespiana, adolescente ainda, maravilhada com as aulas de Teoria da Literatura. Comparações e contraposições com Rousseau, com Taine, com Realismo e Determinismo. Desenvolvi, depois disso, um encanto inquestionável por Oscar Wilde: suas frases cínicas e fortes, sua criticidade, seu jeito dândi, seu manejo singular com as palavras (sim, porque li trechos no original, em inglês). Li outras coisas dele, mas nada que se comparasse ao seu único romance.
Ganhei, cinco anos depois de ler pela primeira vez, um exemplar de aniversário - um de muitos livros que, carinhosamente,  meu namorado me deu. Confesso que comecei a releitura por diversas vezes, mas sempre a abandonava em virtude de alguma outra leitura profissionalmente necessária. Eis que, neste final de semana de Páscoa, ressuscitou-me a ideia de reler a obra. Coloquei-a na bagagem e, confesso: decisão acertadíssima.
Desta vez, chamou-me mais a atenção os aforismos wildeanos embutidos nas falas de Dorian, de Lorde Henry, de Basil. Personagens singulares, muito bem moldadas, exemplares perfeitos do que eu imagino ser a sociedade inglesa (ou do que Oscar quer que eu imagine). Enredo em segundo plano, pude saborear cada pensamento, toda delicadeza e, paradoxalmente, aspereza dos dizeres. Que eficiência em criar tipos sociais tão ricos! Quanta nobreza em expor as transformações deterministas pelas quais o ser em sociedade se submete a fim de se adaptar! Que confusão de sensações me proporcionou a simples (?) re-leitura de um romance.
Aprendi com Oscar Wilde que a vida é feita de riscos e que as imperfeições humanas são, seguramente, as particularidades que tornam os seres mais interessantes. Há tantas frases do livro soltas nos sites de busca, grandiosas, tantas verdades cruéis. Tantos Dorians pelo mundo.
Fechei o livro e meu primeiro pensamento foi: meu nome está escrito no túmulo de Oscar Wilde, no cemitério de Père-Lachaise. Eu me rendi à vontade de fã e deixei meu nome, meu apreço e um beijo lá, como no curta do "Paris, te amo". E dito isso, nada mais pode ser acrescido, a não ser que a vida, de fato, imita a arte, e vice-versa.

domingo, 17 de abril de 2011

A sacrassaga - ou - Neologismos à flor da pele - ou ainda - Eu, cubista.

Quando o Guimarães Rosa não conseguia exprimir o que estava sentindo, pensando ou criando com palavras da nossa tão vasta e cansativa língua portuguesa, dava-se ao luxo de criar verbetes. E, claro, como possuía conhecimento de mais ou menos vinte outras línguas, misturava tudo. Num samba de crioulo doido, inventou "Sagarana", por exemplo.
Pois eu estou criando palavras, pensamentos e sensações usando o mesmo princípio. Se não há como explicar, cria-se outra coisa. Se não há nada que satisfaça, mistura-se para criar uma outra coisa. A fórmula parece algo cubista, e de fato, com o uso que faço, é. Cubismo linguístico para Guimarães, cubismo sentimental para mim.
Várias perspectivas sobre uma mesma imagem levam à sobreposição e recriação, uma nova visão. Pois eu, neste final de semana, tornei-me cubista. Adquiri novas visões sobre as mesmas coisas, pura e simplesmente porque mudei o ângulo de visão. Olhar o mesmo com olhar novo, distanciado até.
Nunca imaginei que Guimarães Rosa e Picasso pudessem ser tão assimetricamente parecidos. E eu, no meio dessa comparação, criando novos sentimentos em relação às mesmas pessoas de sempre.
Bom (re)ver conceitos. Melhor ainda reforçar, ratificar o "quem sou eu". Os orientais, ironicamente, acreditavam que, às vezes, é preciso dar uma passo para trás para poder dar dois para frente, depois.
Pois então: misturei o que já sentia, o que passei a sentir e o que gostaria muito de sentir e criei um novo sentimento. Batizei-o de... (preciso criar um nome).

terça-feira, 12 de abril de 2011

A arte do não-compreender - ou - De novo, Clarice?

Eu sei toda a teoria, mas a prática é tão distante! Por que eu fico tentando entender? Sábia Clarice que deixou pro mundo o legado do viver sem se preocupar com o entendimento.

domingo, 3 de abril de 2011

Simplificando, para complicar - ou - A melhor tecnologia de todos os tempos da última semana!

Eu aderi ao Twitter. Tudo muito confuso, isso de ficar resumindo dizeres e pensamentos. Um símbolo dessa geração sedentária mental. Preguiça galopante de pensar. E de ler, sobretudo. Mas eu aderi. Preciso conhecer, saber, entender - antes de continuar criticando.
Há vantagens. A receptividade, por exemplo: bem maior por lá. Outra: várias pessoas interessantes, mesmo!
Para o bem e para o mal, eis o microblog.
Eu sempre me lembro do Oswald de Andrade quando me meto nesses assuntos de tecnologia. Ele e sua turma eram os maiores entusiastas da tecnologia e do Futurismo, porque acreditavam que a máquina - substituindo o homem - deixaria tempo disponível para que as pessoas pudessem se dedicar a outras coisas, aos prazeres, à arte. Ledo engano. O homem ficou escravo da máquina, e a preguiça começou a reinar - porque o tempo livre foi usado para o ócio improdutivo.
O Domenico de Masi tentou até achar um jeito de retomar (indiretamente, claro) essa ideia, elaborando teorias do "ócio criativo", mas era tarde demais. O ser humano do século XXI é, por excelência, acomodado. Quer tudo pronto/semipronto, mastigado, prático. E, ao meu ver, o crescimento dos microblogs também é retrato disso. Por que me desfazer em palavras, se posso me resumir em 140 caracteres?
E não adianta vir me falar que tem muita gente lendo hoje em dia, porque não vou aceitar estatística que envolva a saga Crepúsculo, livro do Padre Fábio de Melo, do Augusto Cury ou algo que pode ser lido em horas e tenha aquele gosto de "eu te conheço?".
Escrevo, agora, lá e aqui. Aguardemos por cenas dos próximos capítulos...

sábado, 26 de março de 2011

"Once upon a time" - ou - "In a kingdom far far way"

Outro filme de época? Sim, ela adorava! Insistiu para que pegassem a primeira sessão da noite: 19 horas. E isso era noite para quem conhece a verdadeira noite? Ele não teve a audácia de dizer; contentou-se com o pensamento e com o silêncio. Sim, você sai do trabalho e me encontra lá na frente, ok? Assim, fica mais fácil. Será que eu poderia inventar uma desculpa esfarrapada? Uma complicação de última hora no trabalho, talvez. Porque as desculpas do trânsito e do ônibus lotado soam tão clichês - embora tais clichês sejam mais verdadeiros do que antes. Não, ela não acreditaria. Pior: emburraria sabe-se lá por quanto tempo. Combinado? Claro! Beijinhos na testa e as pernas se despedem: cada par para o seu lado.
Do lado esquerdo, nosso galante herói, subjugado pela força da imperatriz malvada. Bravamente carrega nos ombros a rotina de uma profissão que consome a seiva de nosso protagonista. E o dia assim se empurra, é empurrado. E as horas se esfarelam diante dele na mesa do almoço, enquanto come o pãozinho de aperitivo. Toda a tarde é maçante, meus senhores! Mas nosso guerreiro resiste. Vê o tempo passar a pernadas a caminho do nada. E chega o horário de partir.
No caminho, pensa no motivo que a leva a gostar tanto de filmes de época. Elabora teorias. Todas muito ilusórias. Confuso, ela é confusa: pior do que filme do David Lynch. E não é uma confusão bonitinha, como se ela fosse uma daquelas mulheres excêntricas e perfeitinhas de filme de Woody Allen. Nada. Confusa porque plana demais. Irritante.
Já cheguei. Ela, atrasada. Detesto chegar antes e ficar esperando por um compromisso que eu faria questão de desmarcar.
Ela chega. Beijo no rosto, fila de ingressos, fila de pipoca e água com gás. Mais sal. Um canudo, por favor.
A sala lotada. Cinema ruim, não se escolhe poltrona no ato da compra? Tá, não acho dois lugares juntos. Eu fico aqui, vc se senta lá.
E o filme começa.
Ela não está ao lado para fazer comentários desnecessários durante o filme.
Ela levou a pipoca, a água com gás, o canudo e o sal. Mas deixou uma calma...

Foi o primeiro filme de época de que nosso herói realmente gostou.

"Once upon a time" - ou - "In a kingdom far far way"

Outro filme de época? Sim, ela adorava! Insistiu para que pegassem a primeira sessão da noite: 19 horas. E isso era noite para quem conhece a verdadeira noite? Ele não teve a audácia de dizer; contentou-se com o pensamento e com o silêncio. Sim, você sai do trabalho e me encontra lá na frente, ok? Assim, fica mais fácil. Será que eu poderia inventar uma desculpa esfarrapada? Uma complicação de última hora no trabalho, talvez. Porque as desculpas do trânsito e do ônibus lotado soam tão clichês - embora tais clichês sejam mais verdadeiros do que antes. Não, ela não acreditaria. Pior: emburraria sabe-se lá por quanto tempo.
Combinado? Claro! Beijinhos na testa e as pernas se despedem: cada par para o seu lado.
Do lado esquerdo, nosso galante herói, subjugado pela força da imperatriz malvada.
Bravamente carrega nos ombros a rotina de uma profissão que consome a seiva de nosso protagonista. E o dia assim se empurra, se é empurrado. E as horas se esfarelam diante dele na mesa do almoço, enquanto come o pãozinho de aperitivo. Toda a tarde é maçante, meus senhores! Mas nosso guerreiro resiste. Vê o tempo passar a pernadas a caminho do nada. E chega o horário de partir.
Eu não quero me atrasar! Saio agora e ninguém vai notar.

domingo, 20 de março de 2011

Documentando - ou - Promessa é dívida!!!

Não, não é mais uma promessa de domingo: tenho até julho para emagrecer, pelo menos, cinco quilos. Por quê? Porque eu achei uma calça que eu amava na minha gaveta e eu faço questão de colocá-la novamente. Sei que não existe outra do gênero no mercado, porque é algo muito exclusivo. Então, vou ter que voltar a caber naquela mesmo... E, como eu funciono pela culpa, vou colocar aqui a meta para, toda vez que lê-la, poder me sentir culpada se não a seguir.
Além do mais, tem outra coisa: se eu prometi (nem que seja a mim mesma), eu vou cumprir. Porque eu sou assim. Eu demoro para exteriorizar desejos, mas se o faço, eu cumpro. Simples assim. E o mundo seria um lugar melhor se todos fizessem o mesmo.
Enfim, eu vou emagrecer: seja pela força de vontade, seja por esse remédio amargo pra gastrite que me deixa sem paladar...

sexta-feira, 18 de março de 2011

Reolhares - ou - A tradição da ruptura

Depois de anos, olhar para o mesmo com o olhar maduro. Saber que os defeitos são inerentes e sempre foram - mas debaixo da poeira acumulada pelo tempo, ainda há suntuosidade. E resgatar, na imagem já tão desgastada, as mesmas sensações de quando era tudo primeira vez.
Cíclico. Único. Verdadeiro. Eis-me. Ei-lo. E, já que a vida nunca mais poderá ser a mesma, que seja mesmo assim.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Digno de nota - ou - Efeito placebo?

Depois de meses e meses, reservei parte da noite de ontem pra sentar num boteco e tomar cerveja! Nada melhor do que retomar velhos bons hábitos.
Hoje? Sono, muito sono. Mas o humor, esplêndido! Placebo ou não, o que me interessa são os fins e não os meios.

terça-feira, 15 de março de 2011

Qualquer dia desses... - ou - Ser incondicionalmente...

Qualquer dia desses, eu peço licença pros alunos, pra poder filmar umas aulinhas. Sim: porque tem coisa que acontece em sala de aula que daria matéria excelente pra crônicas, contos ou qualquer texto ficcional.
Já ouviram falar de professor que teve que socorrer aluno que tira bicho de pé com a ponta do compasso e se machuca? De professor que tem que fechar a porta da sala pra namorada de um carinha não entrar pra pegar no soco a amante dele, que é aluna? De aluno que faz festa surpresa, em outubro, pra professora que faz aniversário em julho, só pra ela não desconfiar? De professora que faz excursão pro Hopi Hari, sobe numa mureta do parque e se finge de estátua só pra poder baterem foto? De professora que, de tanto contar história, ganhou o apelido de "Forrest Gump"? De tanta coisa boa, de tanta coisa ruim...
A vida tem dessas.
Quem sabe escolho algumas pautas e parto pra ação: já pensou se vira livro?
PS: Tudo isso porque ouvi um "muito obrigado" de um aluninho que se formou em Jornalismo, e diz que foi por minha causa...

sábado, 12 de março de 2011

De uns tempos pra cá - ou - O certo e o duvidoso

De uns tempos pra cá, tenho conhecido pessoas interessantíssimas. A maioria, graças à amiga querida, Andréa. Outro bom tanto graças ao namorado. Algo ainda conseguido pela vontade de conversar com "estranhos" que ando tendo. Mas tanta gente interessante me faz pensar em quanta gente desinteressante existe no mundo e que só percebemos quão desinteressantes são/eram/sempre serão quando nossos olhos se abrem ao novo.
Que bom que tenho pessoas interessantes na minha vida, que me alegram com o acréscimo de outras pessoas interessantes! E melhor ainda: que bom que essas pessoas interessantes, quando me conhecem, se referem a mim como uma pessoa interessante.

Resumo: novas amizades, novos contatos, novas expectativas. Lanço um olhar de novos "quereres" no horizonte. E renovo meus ideais. E deixo sair aquilo que não me vale mais. É como diz o meu querido Lenine: "É o que me interessa".
Vale até colocar aqui.

É O QUE ME INTERESSA
(Lenine)


Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem.

Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa.

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa

sexta-feira, 11 de março de 2011

Peter Pan - ou - No meu tempo...

Entendo que sou bem mais velha do que imaginei que eu fosse. Criancice, comigo, não tem vez. Sangue italiano nas veias: as coisas se resolvem na palavra!

sexta-feira, 4 de março de 2011

Síndrome da verborragia - ou - As proporções

O homem do século XXI enaltece muito a fala: supervaloriza. Há uma cultura do falar tudo o que se pensa - e esses blogs são retrato disso (tsc tsc tsc), de se valorizar tudo o que se fala, e de se partir do princípio de que se deve ser ouvido. Se todos querem falar, quem resta para ouvir? Terapeutas. Profissão do futuro! E do presente, claro.
Tenho aprendido a duras custas que, na maioria dos casos, é melhor calar. Não de apatia, não de conformismo: de solidariedade com aquele tão esquecido silêncio necessário.
Parece óbvio (e é): quem não ouve, não aprende. Isso justifica a massa de pessoas desatentas e sem conhecimento desse Brasil. Uma professora da finada quinta-série (hoje, "tucanada": sexto ano) disse em uma aula para um amigo meu, que conversava durante sua explicação, que Deus deu ao homem dois ouvidos e uma boca para que ele os usasse nessa proporção. Na época, achei engraçado o fato de ela envolver Deus para justificar o pedido de silêncio (de repente, são episódios como esse que me alimentaram a culpa católica de tudo). Hoje percebo que, com Deus ou sem Deus na justificativa, a força da expressão é a mesma.
Sábia dona Sílvia, minha professora de matemática, que me deixou este legado: as proporções.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

"Se todo o amor não foi capaz" - ou - "Os ombros que suportam (...)"

É meio Macabéa: ela era incompetente para a vida. Desastrada, desleixada, desamada, desalmada. Aí a Glória indicou uma cartomante. E a coitada vislumbrou o futuro, enxergou vida na existência subformada. Mas morreu atropelada, vomitando uma estrela de mil pontas.

A mocinha da minha história é um pouco assim: foi vivendo (mais do que a Macabéa, mas isso é questionável em alguns aspectos), até que ouviu do vidente que "não há mais nada que você possa suportar". E entendeu. Conseguiu entender que, se "suporta", é porque não gosta. E, se não gosta, pode mudar.
Tentou mudar. Em vão. E entendeu que, se não há comprometimento mútuo, não há mudança real. E que não se deve esperar de alguém que as coisas sejam diferentes: as coisas são assim.

Foi atropelada, mas não morreu. Acho até que sairá sem ferimentos graves. E, ainda inconsciente, ouve de fundo "Um Beijo meu", com a voz da Zizi Possi. Tem música mais triste pra isso?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Je m'appele... - ou - Bienvenue! Recommencer!

Reviravoltas deixadas de lado: tudo se resolve com uma boa aula de Francês. Novos coleguinhas, novo horário, novo professor, nova escola - novidades.
Qualquer dia desses, encarno um pseudo-Policarpo Quaresma e mando uma proposta para votação: o Francês como terapia. Que língua linda! Tem a cara da cultura, a musicalidade é tão palpável, tão incoerente o exagero de letras e a concisão de pronúncias - uma série de pormenores tão especiais... J'adore!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Engraçadinho - ou - Sinestesia

Insônia? Cansaço? Estresse? Síndrome de "homem que odiava a segunda-feira" (bem Loyola)? Ansiedade?

R:/ Faça uma endoscopia - com direito a Dormonid na veia - em plena segundona de manhã. Dá uma paz de espírito...

Esse efeito "dormonid" é interessante: estou "sóbria", mas pareço imagem via satélite intercontinental - tem uns segundinhos de atraso na resposta... rs

Engraçado.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Olha - ou - As musas

E hoje, ouvindo novamente minhas coletâneas do Chico, que eu amo, dei de cara (ou de ouvido?) com "Beatriz".
E resolvi colocar aqui.

Nome de filha? Talvez.



Lindo. Sempre lindo, Chico.
E eu aqui, cheia de suspiros.

Promessas para uma vida melhor - ou - Eu me comprometo a...

Eu tinha prometido a mim mesma que não ficaria dissipando lamúrias aos quatro ventos, quando eu pudesse lidar com o problema, ou quando não quisesse resolver o problema. E me esqueci.
Que fique registrado aqui, neste espaço, que eu me comprometo a deixar de lado a reclamação: assumo que minha vida é feita de minhas escolhas e toco em frente.

No mais:
Cuidando da saúde, entretendo-me com coisa boa, fazendo planos mais verossímeis e a curto prazo, curtindo a família, selecionando.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"Foi apenas um sonho" - Por que eu continuo tendo medo de Virginia Woolf

Ontem eu fui assistir ao filme Cisne Negro. Merece um post só pra ele, coisa que pretendo fazer depois. Mas o fato me motivou a pensar nos filmes que, depois de vistos, fizeram com que eu mudasse meu norte, minha visão sobre muitas coisas. Sempre o "Quem tem medo de Virginia Woolf", sempre o "As horas". Há tantos outros, mas esses dois últimos foram, ao meu ver, essenciais para minha formação intelectual. Atualmente, acrescentei ao hall dos most importants o filme "Foi apenas um sonho". Razões não faltam.

Antes de mais nada, banalidade - eu desenvolvi um fascínio inexplicável pelo Leonardo di Caprio. Sempre tive, mas ele é um desses casos que eu chamo de "pessoas-vinho", que melhoram com a idade (em tudo).
Há também a particularidade de o casal ser formado pelos atores que se eternizaram no filme "Titanic" - sim, essa eternidade Blockbuster não era merecida, mas foi bem redimida com o tal filme.
Casados há alguns anos, mas muito jovens, as personagens mostram-se insatisfeitas com a vida "status quo" que levam. Ele tem o mesmo emprego que o pai teve, em uma firma massacrante. Ela é uma dona de casa amargurada. Eles têm filhos, precisam ter uma vidinha que os sustente. Entretanto, a sensação de insatisfação faz com que ambos projetem uma saída, vislumbrem um futuro que não seja espelho do que já vivem. Nada melhor do que recomeçar em um lugar diferente, com o qual ambos sonhavam: Paris!
Fazem de tudo para que o sonho - visto como leviano e irracional por grande parte dos conhecidos - seja colocado em prática. E a partir daí o filme se torna muito introspectivo, psicológico e visceral.
A partir da projeção de um sonho, estabelece-se o inevitável: diante da expectativa criada, tudo o que os rodeia passa a ser cada vez menor, menos importante e interessante. Parece óbvio. Mas o que acontece quando o sonho não dá certo e é necessário voltar ao que se tinha antes, ao que se era antes?

Aplico tantas dessas sensações trabalhadas no filme com o que vivo! Como, depois de vislumbrar e de conhecer o mundo lá fora, voltar a se acomodar com o que se tem?

Eu nunca entendi o truque da cartola... Mas meu problema em entendê-lo não era saber como o coelho foi tirado de lá de dentro: o problema era entender como fazer para, depois de retirado, colocar o coelho de volta.
Acho que os sonhos e os desejos são um pouco assim: coelhos que saltam da cartola. Mesmo que o truque funcione, e que engane o espectador, o mágico nunca é capaz de fazer o coelho voltar lá pra dentro.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Mitologia reloaded - ou - "I hate to say 'I told you so' "...

A gente ouve histórias sobre os deuses, semideuses e mortais da mitologia - mesmo depois de tantos séculos passados. A grande verdade é que tudo o que se conta de lá é atemporal: sabe a história do "só muda o endereço?". Pois então.
Tenho alguns mitos preferidos: o da Medeia, da Pandora, do Eros e da Psiqué, e o do Édipo Rei. Acho que a preferência, entre outras coisas, se deve a conhecer um pouco mais destes do que de outros. Mas acho histórias tão intrigantes!
Atualmente, a ideia fixa é com a Pandora e sua caixa. E a minha Pandora, no caso, sou eu. Fui jogar no mundo, tirando de mim, algo com o qual ainda não sei lidar - e quem abriu a caixa tampouco...
Cenas dos próximos capítulos? Aguardem.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Homeopatia - ou - as sutilezas da vida adulta

Verdades em doses homeopáticas. Não, eu não acredito em homeopatia. Mas pequenas doses constantemente podem surtir mais efeito do que uma dose só concentrada. Aprendi. Tô aprendendo.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

De volta pra casa - ou - The same old thing, but new

Ao chegar, um grupinho de meninas escandalosas, dessas que adoro, na entrada. Fui atacada por beijinhos, apertões, carinhos, perguntas, novidades. A diretora de cara feia esperando no corredor - como se nada daquela alegria de recomeço tivesse a ver com ela. Dei de ombros, juntei-me às companheiras e, com a esperança de sempre, fomos trabalhar.
Tinha me esquecido como é gostoso ouvir sem querer os comentários dos alunos, quando descobrem que será você a professora daquela disciplina durante o ano todo. Ouvi, ainda bem, muitos "obas" "vivas" e "graças a Deus", fui bem recebida, começamos bem.
Cheguei em casa com um sorriso maroto no rosto e com a sensação de que tudo vai dar certo este ano.
Como é bom fazer o que se gosta! Uma recompensa, nessa vida.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Monteiro Lobato reloaded - ou - Emilia´s way of life

Toda vez que eu visito o Museu da Língua Portuguesa, faço questão de assistir à apresentação do 3o. piso. Sim, é sempre igual - aliás, somente a exposição do 1o. piso que muda semestralmente. Mesmo assim, tem as citações queridinhas na segunda parte da apresentação: poemas especiais projetados nas paredes e no teto da tão bonita Estação da Luz. Uma delas, particularmente, sempre achei engraçadinha. Mas hoje, sabe-se lá o porquê (?), reconsiderei: não é engraçadinha coisa nenhuma! É de uma seriedade de arrepiar!
Trata-se de um aforismo em forma de diálogo, travado entre a personagem Emília  e o Visconde- criações de Monteiro Lobato.
Eu admiro muito o Lobato, apesar de sua visão meio distorcida das coisas. Tá, o cara era bem complicado e adorava uma polêmica - mas, na verdade, ele era apenas produto do meio, da sociedade e da época em que viveu (puro Determinismo, veja bem...).
Quem diria: a Emília ia me colocar pra pensar na vida depois de adulta. Como a boa literatura é surpreendente!

Eis:
 “[...] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo,
é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia.
Pisca e mama;
pisca e anda;
pisca e brinca;
pisca e estuda;
pisca e ama;
pisca e cria os filhos;
pisca e geme os reumatismos;
por fim pisca pela última vez e morre.
– E depois que morre? – perguntou o Visconde.
– Depois que morre, vira hipótese [...]”

Monteiro Lobato
em "Memórias da Emília" (1936)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A face oculta do ser - ou - "Por isso essa força estranha..."

É difícil, para uma menina católica-apostólica-romana que eu fui, falar nos dias de hoje sobre Deus sem pender para o lado cristão. Não é simplesmente algo em que acredito: é algo que sou. A religião e eu somos indissociáveis - ou quase.
Nas férias, conversei bastante com uma amiga que tem feito meditação. Falamos sobre a noção de Deus, a visão que a religião nos impõe do Deus trino, o peso que o catolicismo teve nas nossas vidas moldadas à maneira interiorana, enfim. E eu tenho desenvolvido a teoria de que muito do que vejo de "errado" na minha vida se resume a algo que batizei (tsc) de CULPA CATÓLICA. Tá, eu sei que outro alguém já deve ter usado o termo indistintamente por aí, mas a minha definição de "culpa católica" nada mais é do que ser impregnado pela noção de pecado a ponto de não ter mais outro parâmetro para julgar o certo e o errado que não seja o parâmetro religioso. E qualquer ato falho resulta, consequentemente, em uma sensação dantesca de culpa.Quem é católico - dos de verdade, não dos de fachada, que existem tantos por aí nesse Brasilzão... - sabe do que eu estou falando.
Cresci ouvindo minha avó falar que era devota de Nossa Senhora, de Santo Antônio; minha mãe me aconselhando a rezar pra Santa Filomena em véspera de prova; meus tios falarem da homilia do padre na missa - entre tantas outras coisas. Resumindo: essa cultura católica faz parte da minha formação até os ossos!
Hoje, mais madura, depois de ter lido tanto Nietzsche, Schopenhauer, Descartes, Sartre... - ainda assim a católica que mora em mim se vê pedindo a São Bento (que descobriu ser seu santo favorito... rs) coisas que a razão não oferece.
Sou uma católica madura, mas sou católica enfim. Por mais incoerente que possa parecer.

Finalizo com um trechinho irônico de uma música de que tanto gosto, do Gil:
Esotérico.
"Se eu sou algo incompreensível/ Meu Deus é mais!/ Mistério sempre há de pintar por aí".

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

C'est moi - ou - Aujourd'hui ou toujours

E hoje posso dizer, sem falsa modéstia, que me reconheço mulher. Sou plena de certezas. Sei e não sei de nada, mas tenho consciência de que sei tudo o que posso saber até aqui. O que ainda não sei, não é porque não consegui saber, mas sim porque ainda não devo.
Conheço o que fui até agora e, bem ou mal, fui o que consegui ser. E sou feliz pelo que tenho sido. Sem arrependimentos.
Não superei expectativas, não ganhei medalhas, não fui eleita a mulher do ano. Mas hoje me olhei no espelho e vi do outro lado essa moça tão segura de si, mesmo com uma tristeza nos olhos que significa não sei o quê.
Não choro mais para ser acalentada: choro porque se é preciso. Não domino nem sou dominada: danço conforme a música, a minha música.
Sou. E isto diz tudo por ora.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Too little too late - ou - Ceticismo para principiantes

Adolescente é um bicho tonto: antecipa etapas que não devem ser antecipadas, faz escolhas erradas (e nem ao menos aprende com os erros), acredita ser o dono da verdadeira verdade, acha que vai viver para sempre, entre outras sandices...
Como todos os outros, fui uma adolescente tonta. E até acho essa tontice válida - é inerente à passagem para a vida adulta. Foda é carregar os karmas e as escolhas da adolescência até a porta dos trinta anos.

Fase mais seletiva. É como eu disse dia desses aos meus pupilos: "Cuidado comigo em 2011, não deixe a bolinha pingar. Se não...".
Bem por aí!
E tenho dito!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tragédia em 7 atos - ou - Angústia (e não é obra do Graciliano Ramos, embora o sobrenome seja o mesmo)

Tragédia em 7 atos - cenas únicas

ATO 1
Tentativas, persuasões, dúvidas.

ATO 2
Confirmação, palavra de honra, lucro, expectativas, envolvimento.

ATO 3
Começo de enrolação, pequena hesitação, fôlego, expectativa.

ATO 4
Confirmação, palavra de honra, lucro, expectativas, envolvimento.

ATO 5
Desastre, fúria, explosões, angústias, quebra, desconfiança.

ATO 6
Conversa, panos quentes, mais enrolação, prazo, palavra de honra.

ATO 7
Angústias, quebra, desonra, desonestidade, decepção.

(Juro que quero escrever o 8o. ato, com teor mais ameno, leve, feliz)

Estômago - ou - O calcanhar de Aquiles

Sim: tudo de ruim que me acontece acaba em dor de estômago. Sempre foi meu ponto fraco pra tudo. Engordo porque ele pede comida, como demais e ele dói. Paro de comer e ele queima. Fico nervosa e ele sangra.
Meu estômago é meu espelho: se estou bem, ele está bem; se estou mal, ele está também.
Dor desde quinta-feira à noite. Noites mal-dormidas desde então. A ansiedade pelo recomeço de amanhã só faz piorar.
Aquiles tinha seu calcanhar. Eu, o estômago. Igualmente sem glamour, Aquiles e eu temos pontos fracos. Mas ele só foi atingido no calcanhar uma vez.

Se eu pudesse resolver o que me aflige, se eu pudesse enxergar uma saída. Ah, se meu estômago falasse com a boca que todo mundo diz que ele tem...

(FRAGMENTO 1 - Observação para o futuro: depois que tudo passar, vale lembrar quem manteve a palavra e quem novamente "pipocou" - sabe-se lá quantas vezes).

(FRAGMENTO 2 - De novo, Dom Quixote. Mas às avessas: julga serem moinhos de vento o que são, na verdade, gigantes. Admiração e tristeza)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A arte de (re)escrever - ou - Não faz assim...

Pois então... Pensei durante as miniférias em muita coisa boa, matéria de textos. Até cheguei a publicar um, agorinha. Mas reli, não gostei, apaguei.
Ah, se a vida fosse assim: a gente apaga o que saiu errado...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

"Snowed Under" - ou - A busca pelo Santo Graal

Fiquei durante muito tempo, anos atrás, ouvindo Keane constantemente. E minhas percepções sobre as letras e melodias foram variando à medida em que eu também variava. Ora pareciam muito abstratas, imprecisas - até com cara de "feitas às pressas", ora eram a verdade que eu precisava ouvir. Desconexas, mas pungentes.
Hoje, enquanto voltava de um passeio em busca de presentes e encomendas, ouvia minha seleção de músicas do MP4: um pout pourri de tanta coisa que ficou gravada ao longo dos anos no meu computador. Entre tantas, começou a tocar a seleção de Keane. E uma música que não ouvia há tempos me abriu os olhos - que é a que dá o título a este post tão sem sentido, sem critério, sem intenção, sem compromisso.
É: acho que estou na fase de achar que a arte imita a vida, e que Keane me é necessário.
Depois de ouvi-la, andei por um bom tempo, olhando o solzinho encabulado que saiu de trás das nuvens pesadas da chuva de antes - e me dei conta de que eu sou especial demais para não ser tratada como tal. E tal revelação fez com que eu ganhasse meu dia.
Tá, não foi só a música do Keane. Mas achei a coincidência tão bonitinha...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Lenine e "O silêncio das estrelas" - ou - Existencial.

São Paulo.
Sozinha, ela fumava e escrevia, ouvindo “Dancing in the dark” da Diana Krall... Olhando nuvens rosadas pela janela da área de serviço. Sentindo-se a própria GH da Clarice. E sonhando que sua fumaça se juntava às nuvens e ia longe – e com ela, um pedaço do que já a pertenceu. E a lua se encobriu de fumaça, de nuvem  - e de silêncio.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

"Let's face the music and dance" - ou - A arte do nada fazer e tudo querer - ou ainda - Por que Fernando Pessoa é tão atual...

Fui assistir à exposição do Fernando Pessoa no Museu da Língua Portuguesa. Não gostei muito: tudo muito parecido com o que já foi feito lá. Uma judiação, porque ele merecia algo arrebatador, como ele(s) - ele e seus heterônimos.
Entretanto, algo me fez pensar no porquê da escolha de Fernando Pessoa para ser matéria de exposição - boa ou não. Claro que ele mereceria uma exposição das boas, por seu valor artístico, por sua influência literária, pela sua grandiosidade. Mas, para mim, ele merece uma homenagem principalmente porque conseguiu se expressar através da criação de personalidades que o completassem, que expressassem o que ele gostaria de ser, ou o que abominava - mas que fossem ligadas a ele, para o bem e para o mal.

Pensei, enquanto voltava para casa ontem, que todos nós podemos ser Pessoas - pelo menos, eu posso. Tive certeza ontem de algo que já imaginava: consigo ser eu e outra. Indissociavelmente. Duas partes que se completam, que se diferem, que se intercalam.
Entretanto, um dos heterônimos sempre se sai melhor. No caso de Pessoa, por exemplo, Alberto Caeiro: ele foi coroado mestre. No meu caso, ainda não sei.

Acho que travei. Quer dizer, travei mesmo. Não consegui ser "eu". Tudo pareceu surreal: parecia que eu era expectadora, e não protagonista (ou mesmo coadjuvante). Ser expectadora da própria vida, dos acontecimentos importantes - é foda. O fato é que parecia que não estava acontecendo comigo, ou estava, mas em um universo paralelo. Vale não ser "eu" em um universo paralelo?

Mas o que me consola é que, independentemente de agir como ortônima ou heterônima, agi. Como diz minha amiga Diana Krall: "Let's face the music and dance". E eu me permiti viver.

"Ela desatinou" reloaded - ou - Porque eu ouvi Chico na tevê...

É... Definitivamente meu ano começou diferente.

E, pra completar, ao chegar em casa assisti a um capítulo da minissérie musical com base em músicas do Chico. Hoje? "Te perdoo".

A vida é cheia de coisinhas engraçadas...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ata - ou - Diga-se de passagem

Hoje é dia seis de janeiro de 2011. Devo guardar esta data.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Rito de passagem - ou - Prós e contras

Na contagem regressiva para 2011 chegar, ela chorou. Mais do que o efeito dos fogos de artifício, mais do que o efeito do sentimentalismo enlatado dos programas de televisão, mais do que a distância da família - ela chorou por outra coisa.
Ela chorou por deixar para trás um ano de conquistas, de realizações - um ano de segurança. Ela chorou por não saber o que o futuro reserva a ela. Ela chorou por não ter saber, por não ter certeza, por não ter plano.
Ela chorou por ter visto acabar algo que foi tão bom.
Ela chorou por outras coisas também. E ela chorou muito.
E, depois do choro, ela começou a se acostumar com a novidade.
A pequena morte deixou a saudade.