Quis comprar um celular novo. O último modelo não cabia no orçamento, mas escolheu um bem legal. Aparência similar, mesmo tamanho - quase autista. Queria o backup de tudo - bem autista. Muda para o novo e carrega tudo. Significativo, isso.
Por essas coisas do destino, descobriu que não fazia backup do celular desde 2017. Então apertou o enter: que o backup comece.
Muitas horas depois, quase dias, nada de dar certo. Backup pela metade. Resolveu puxar só o essencial, ou menos do que isso - ansiedade pela troca.
O celular usado, como sempre, passaria a ser da mãe. Restava apagar tudo.
Tentou fazer do jeito convencional: salvar tudo na nuvem e restaurar. Por essas coisas do destino, não conseguiu. Horas tentando e nada.
Cansada, limitou-se a tentar novamente no fim de semana. E foi aí. O momento.
Enquanto buscava o sono, resolveu mexer em arquivos antigos. Caçou o contato. Releu mensagens de WhatsApp. Durante a leitura, uma sensação esquisita, desconforto. Não era reviver: era ver.
Sentiu-se como Miguilim, colocando os óculos pela primeira vez. De início, estranhamento. Viu-se de fora. Não perdeu a imagem de quem viveu, mas conseguiu se afastar o suficiente para ver o drama, os exageros, os erros. Sem culpar. Só viu. Pensou em tudo que poderia ser diferente se ela vivesse as mesmas coisas hoje.
Refletiu: fez o que conseguiu com o que tinha, com o que era. E era isso: o melhor que conseguia fazer.
Sentiu um orgulho bem grande por ter conseguido ter uma visão autocrítica não destrutiva. Com empatia racional, talvez.
Agridoce: tanto orgulho do crescimento, tanta angústia por ter perdido algo incomparável.
Resolveu respirar, tentar dormir.
Ainda não fez backup.
E o que fazer com esse backup? Esse oposto de “Brilho Eterno”?
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