Anos atrás, "Seinfeld" era recorde de audiência nos Estados Unidos, seu país de origem. Vários eram os motivos: a comédia corporal de Kramer, o pseudonamoro com Elaine, o reconhecimento do público na figura "gauche" de George - ou qualquer outra coisa.
Os diálogos eram ótimos, as situações eram extremamente comuns, usuais - e o apelo ao cidadão comum (o "next door") era óbvio. Mas uma coisa que sempre me intrigou foi a situação de pseudocoadjuvante de Jerry Seinfeld.
Sim, o show tinha seu nome. Sim, os comentários, abstrações, constatações sempre vinham dele. Sim, ele era uma paródia de si mesmo. Meio "metaficção historiográfica". Mas ele era apenas o meio para que outras personagens aparecessem. Nunca foi protagonista no pleno sentido - ao meu ver.
Nada do que acontecia com ele dependia de uma atitude inicial dele mesmo - ele só reagia, ou raramente agia. Era motivado.
Claro, sei que isso tem a ver com a intenção dos roteiristas e talz, mas, de certa forma, sempre achei que ele desempenhava um papel único e perfeitamente desenhado para ele: o de "rebater" as situações do dia-a-dia e ser o espelho do "american citizen". A desmistificação do "american dream".
Ele fazia tudo isso muito bem; afinal, por trás da personagem, existia o brilhante Jerry Seinfeld em carne e osso, movendo seus pauzinhos.
Tá. Tudo isso para poder chegar a outra questão: Jerry Seinfeld parodiou a si mesmo e manipulava sua personagem a fim de projetar através dela valores, (pseudo)verdades, críticas - as quais ele, na realidade, talvez nem fizesse.
Pensei, pensei, pensei.
Conclusão: acho que convivo com "Seinfelds". Sim: seres que projetam imagens trabalhosamente criadas de si mesmos, a fim de rebater. Escondem-se embaixo da fantasia, reagem e não agem. Cópias. Fakes.
Estou trabalhando nesta tese: "A projeção paródica em Seinfeld: efeitos colaterais". Mas preciso de mais tempo.
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