Ficou pensando que talvez a última vez num cinema tivesse sido para assistir a Almodóvar também - pelo menos essa era a última lembrança. "A pele que habito". Na ocasião, saiu do cinema com uma sensação de desconforto e catarse.
Chegou mais cedo, retirou o bilhete e fumou o último cigarro antes de entrar. Foi uma das primeiras pessoas a entrar na sala. Teve tempo de ver trailers, silenciar o celular e pensar que era reconfortante estar ali, sozinha.
Saiu da sala pensando na culpa que toda mulher católica carrega, inevitavelmente. Reconheceu-se por inúmeras vezes na protagonista, mas por motivos diferentes. Poderia ser ela, sua mãe, sua melhor amiga. Poderia ser a história dela. Tinha tudo para ser. Mas ela nunca tinha tido filhos, nunca teve uma grande perda. As pequenas, juntas, foram intensas.
Caminhou pensando nas metáforas do filme. No mar, na busca pela fêmea, na morte. Nas pequenas mortes. Por uns minutos, sentiu uma angústia por ter entendido muita coisa que empurrou por tanto tempo. Mas a sensação de finalmente entender que não há muito a ser entendido a reconfortou.
Ficou, então, andando sem muito rumo por algumas horas. Voltando para casa, serviu-se de uma boa dose de uísque e deitou-se no sofá. Sentia-se feliz, mas em um cemitério. Olhou tudo em volta que não significava mais nada. Estranhamento e confuso conforto. Queria poder chorar, mas não conseguia. Não estava triste. Seria melhor se estivesse? Só pensou nas possibilidades. Sem culpa. Finalmente.
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