sábado, 28 de janeiro de 2012
Versículo vinte-sículo vinte Século vinte e um - ou - inovações.
Pela primeira vez, postando algo via celular. Será apenas um teste, mas que fique registrado que, com 30 anos, ainda me bestifico com a tecnologia.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Platão acorrentado (e não Prometeu) - ou - Fiat lux
Em uma aula perdida em suas incontáveis memórias de aulas marcantes, aprendeu sobre Platão e o mito da caverna. Entendeu, então, que há caminhos sem volta. Conhecimento, por exemplo, é um desses caminhos. Conhecer ideias, culturas, pensamentos, erros. Saber.
Mas o saber que mais atormenta é, sem dúvida, o saber que se errou. E lidar com essa ideia é o grande desafio.
Errar e aceitar o fato. Aceitar, principalmente, que certos erros não podem ser corrigidos. Não há retratação: faz parte do pacote chamado "escolhas".
Resta uma dúvida: certos erros são, na metafórica narrativa platônica, a liberdade da caverna ou a prisão em suas mais obscuras profundezas?
Quem sabe, nenhum dos extremos seja a resposta. Mas há de haver mais luz nessa escuridão de dúvidas. E quem sabe a luz, neste caso, seja o tempo.
Mas o saber que mais atormenta é, sem dúvida, o saber que se errou. E lidar com essa ideia é o grande desafio.
Errar e aceitar o fato. Aceitar, principalmente, que certos erros não podem ser corrigidos. Não há retratação: faz parte do pacote chamado "escolhas".
Resta uma dúvida: certos erros são, na metafórica narrativa platônica, a liberdade da caverna ou a prisão em suas mais obscuras profundezas?
Quem sabe, nenhum dos extremos seja a resposta. Mas há de haver mais luz nessa escuridão de dúvidas. E quem sabe a luz, neste caso, seja o tempo.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Você também - ou - Aquela primeira vez
Procurava na bolsa a chave do carro. De nada adiantou colocar dois chaveiros, se a bolsa era grande daquele jeito - e a chave era jogada com tal displicência que sempre escorregava para o fundo, para o lugar mais inatingível pelas mãos apressadas. Encostou-se no carro e jogou a bolsa sobre o capô. Vontade de jogar tudo que as mãos tateavam e que não era o que procurava no chão. Inquieta, ficava incomodada com os olhares questionadores do passantes. Sentia-se impelida a quase justificar o motivo da demora, da procura. Sorria, como se buscasse compreensão.
Puxou! Entrou rapidamente e, antes de dar partida, assusta-se com duas batidas no vidro. Não teve tempo de reagir: apenas olhou e lá estava ele. Não queria o encontro àquela hora. Teve tempo de pensar: estou bem? Meus cabelos? Engordei desde a última vez que nos vimos?
Desajeitadamente tentou abrir a porta, e o gesto o assustou. Segundos intermináveis! Ele se afastou um pouco, esperou que ela descesse. Foi então que ela teve tempo de pensar que, por todo esse tempo, ele manteve um sorriso autêntico nos lábios. Acalmou-se.
Trocou dez ou doze palavras dessas que se trocam entre pessoas que não se veem há tempos. Depois, imaginou que devia estar corada, sentia-se assim. Ele continuou a perguntar sobre banalidades, amenidades. Ela respondia anestesiadamente. Tentou calcular uma resposta melhor. E notou que as perguntas tornavam-se cada vez mais banais. Ele quer realmente saber isso ou só está fazendo rodeios para algo mais?
Sentiu-se confusa.
Talvez cinco minutos tivessem se passado, ele se despediu, reforçando o convite para sábado. A turma toda iria (safety net?).
Ela sorriu, achou bonitinho.
Ficou vendo aquele moço bonito atravessar a rua e entrar no carro. Entrou no seu e foi embora.
Encontraram-se várias vezes depois disso, sempre com sorrisos nos lábios e amenidades nas conversas. O que se alterava era a vontade de ter o que falar para ele.
Certa vez ficaram a sós.
E, desde então, nunca mais foram sozinhos.
Puxou! Entrou rapidamente e, antes de dar partida, assusta-se com duas batidas no vidro. Não teve tempo de reagir: apenas olhou e lá estava ele. Não queria o encontro àquela hora. Teve tempo de pensar: estou bem? Meus cabelos? Engordei desde a última vez que nos vimos?
Desajeitadamente tentou abrir a porta, e o gesto o assustou. Segundos intermináveis! Ele se afastou um pouco, esperou que ela descesse. Foi então que ela teve tempo de pensar que, por todo esse tempo, ele manteve um sorriso autêntico nos lábios. Acalmou-se.
Trocou dez ou doze palavras dessas que se trocam entre pessoas que não se veem há tempos. Depois, imaginou que devia estar corada, sentia-se assim. Ele continuou a perguntar sobre banalidades, amenidades. Ela respondia anestesiadamente. Tentou calcular uma resposta melhor. E notou que as perguntas tornavam-se cada vez mais banais. Ele quer realmente saber isso ou só está fazendo rodeios para algo mais?
Sentiu-se confusa.
Talvez cinco minutos tivessem se passado, ele se despediu, reforçando o convite para sábado. A turma toda iria (safety net?).
Ela sorriu, achou bonitinho.
Ficou vendo aquele moço bonito atravessar a rua e entrar no carro. Entrou no seu e foi embora.
Encontraram-se várias vezes depois disso, sempre com sorrisos nos lábios e amenidades nas conversas. O que se alterava era a vontade de ter o que falar para ele.
Certa vez ficaram a sós.
E, desde então, nunca mais foram sozinhos.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Idolatria - ou - Oscar Wilde reloaded
O dia havia sido nublado. Sentiu por toda a tarde dores fortes de estômago. Ânsia. Uma ducha fria seria o remédio.
Entrou no quarto depois do banho. Havia se enxugado com cuidado, delicadamente. E partia para o ritual de se admirar. Era o seu maior admirador. Narciso moderno.
Eis que a dor ressurge. Gosto de bile. Olhou-se no espelho e viu tudo aquilo que se esforçou para não ver. Anos de adulação barata, tentativas de terapia e busca de equilíbrio com a natureza não o impediram de ver a escória que representava.
Aquela imagem ali, diante de si, era o avesso do perfeito. A corrosão moral, as sucessivas mentiras ao pé do ouvido, os fins que justificavam os meios.
Angustiado, buscou escapar daquele olhar desnudo que agora se voltava para a imagem pobre e imperfeita. Teve asco.
Não foi um arrependimento, pois se julgava esperto demais para sequer supor ter feito algo errado. Não havia, aliás, certo e errado no que fazia: havia o que queria e o que não queria.
Não conseguia mais evitar: via agora o fruto do meio, corrompido, determinado por ele. Vítima e algoz, paradoxalmente. Escravo do pensamento alheio, acumulador de conquistas vazias, agente do prazer pelo prazer. Um parnasiano.
Não conseguia desviar os olhos. Tornara-se um borrão.
Tontura. Não enxergava mais nada.
Acordou sabe-se lá quanto tempo depois.
A primeira sensação foi a do chão frio. Moveu lentamente os braços, buscou apoio. Aos poucos, pôde levar as mãos até a parede, buscando equilíbrio para se levantar. A visão ainda embaçada.
Diante do mesmo espelho, olhou-se. De repente, não podia mais se enxergar: via Dorian Gray.
Então percebeu.
Entrou no quarto depois do banho. Havia se enxugado com cuidado, delicadamente. E partia para o ritual de se admirar. Era o seu maior admirador. Narciso moderno.
Eis que a dor ressurge. Gosto de bile. Olhou-se no espelho e viu tudo aquilo que se esforçou para não ver. Anos de adulação barata, tentativas de terapia e busca de equilíbrio com a natureza não o impediram de ver a escória que representava.
Aquela imagem ali, diante de si, era o avesso do perfeito. A corrosão moral, as sucessivas mentiras ao pé do ouvido, os fins que justificavam os meios.
Angustiado, buscou escapar daquele olhar desnudo que agora se voltava para a imagem pobre e imperfeita. Teve asco.
Não foi um arrependimento, pois se julgava esperto demais para sequer supor ter feito algo errado. Não havia, aliás, certo e errado no que fazia: havia o que queria e o que não queria.
Não conseguia mais evitar: via agora o fruto do meio, corrompido, determinado por ele. Vítima e algoz, paradoxalmente. Escravo do pensamento alheio, acumulador de conquistas vazias, agente do prazer pelo prazer. Um parnasiano.
Não conseguia desviar os olhos. Tornara-se um borrão.
Tontura. Não enxergava mais nada.
Acordou sabe-se lá quanto tempo depois.
A primeira sensação foi a do chão frio. Moveu lentamente os braços, buscou apoio. Aos poucos, pôde levar as mãos até a parede, buscando equilíbrio para se levantar. A visão ainda embaçada.
Diante do mesmo espelho, olhou-se. De repente, não podia mais se enxergar: via Dorian Gray.
Então percebeu.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Compasso - ou - Durante
Fones de ouvido. Tênis de corrida (mas não vai correr). Calça de ginástica. Blusa regata. Óculos de sol. iPod em modo aleatório. Sai.
Pensa naquele filme com o Mel Gibson: campanha da Nike, mulher correndo sozinha, a pista é sua companheira. E se sente uma personagem de campanha da Nike.
Pensa no trabalho, nas coisas que deixou por fazer - nunca tem tempo de terminar tudo o que tem para fazer do trabalho. Pensa nas barbaridades que tem ouvido no ambiente de trabalho. Nas projeções de promoção. Nas possibilidades. Pisca.
Começa a pensar no amor. Pensa no namorado. Nos anos passados juntos. Nas milhares de fases que passaram juntos. Nas barreiras que um ou outro encontraram. Nas adversidades. Nas muitas risadas. No sexo. Nos planos para o futuro. Nas possibilidades. Pisca.
Um carro buzina para a distraída que surge na frente. Pisca.
Pensa na dieta. Nos vários quilômetros que vai ter que vencer nas caminhadas. Nos litros de água que precisa tomar por dia. Nas barrinhas de cereal que substituem o pãozinho da manhã. Na academia. na calça que voltou a servir. No biquíni que vai ficar bem melhor. Nas possibilidades. Pisca.
A música terrível que começa a tocar - e ela não faz ideia de como foi parar em seus arquivos - pede para ser pulada. Próxima. Ah, aquela música...
Começa a se lembrar do tempo em que ouvia aquela música e amava. E amava a banda. Pensa nas coisas de que gostava e se esqueceu. Pensa na influência que a música tem em sua vida. No mau gosto que já teve. Nos CDs perdidos. Nos gostos passageiros. Nas novidades apresentadas pelos amigos. Na coletânea que conseguiu formar em anos de adoração. Na coletânea mais completa conforme os anos e os gostos se aprimoram. Nas possibilidades. Pisca.
Cansada. Mas a sensação de euforia, do caminhar com passos firmes, toma conta dela.
Em casa, a água morna do chuveiro lava um corpo mais cheio de alma. Um corpo cheio de possibilidades.
E, enquanto enxagua os cabelos, pensa que a vida não é o antes, muito menos o depois. É o durante. Pensa que a maior felicidade da vida é ter possibilidades.
Pensa naquele filme com o Mel Gibson: campanha da Nike, mulher correndo sozinha, a pista é sua companheira. E se sente uma personagem de campanha da Nike.
Pensa no trabalho, nas coisas que deixou por fazer - nunca tem tempo de terminar tudo o que tem para fazer do trabalho. Pensa nas barbaridades que tem ouvido no ambiente de trabalho. Nas projeções de promoção. Nas possibilidades. Pisca.
Começa a pensar no amor. Pensa no namorado. Nos anos passados juntos. Nas milhares de fases que passaram juntos. Nas barreiras que um ou outro encontraram. Nas adversidades. Nas muitas risadas. No sexo. Nos planos para o futuro. Nas possibilidades. Pisca.
Um carro buzina para a distraída que surge na frente. Pisca.
Pensa na dieta. Nos vários quilômetros que vai ter que vencer nas caminhadas. Nos litros de água que precisa tomar por dia. Nas barrinhas de cereal que substituem o pãozinho da manhã. Na academia. na calça que voltou a servir. No biquíni que vai ficar bem melhor. Nas possibilidades. Pisca.
A música terrível que começa a tocar - e ela não faz ideia de como foi parar em seus arquivos - pede para ser pulada. Próxima. Ah, aquela música...
Começa a se lembrar do tempo em que ouvia aquela música e amava. E amava a banda. Pensa nas coisas de que gostava e se esqueceu. Pensa na influência que a música tem em sua vida. No mau gosto que já teve. Nos CDs perdidos. Nos gostos passageiros. Nas novidades apresentadas pelos amigos. Na coletânea que conseguiu formar em anos de adoração. Na coletânea mais completa conforme os anos e os gostos se aprimoram. Nas possibilidades. Pisca.
Cansada. Mas a sensação de euforia, do caminhar com passos firmes, toma conta dela.
Em casa, a água morna do chuveiro lava um corpo mais cheio de alma. Um corpo cheio de possibilidades.
E, enquanto enxagua os cabelos, pensa que a vida não é o antes, muito menos o depois. É o durante. Pensa que a maior felicidade da vida é ter possibilidades.
domingo, 18 de setembro de 2011
A arte dos malabares - ou - Reinvenção de G.H.
, mas como pode deixar de viver algo que não tinha consciência de viver? E por acaso se deixa algo sem notar que se está deixando? Acaso imaginavam que ela, tão inocente por fazer apenas aquilo que achava certo, tinha como saber que algo podia dar errado?
Entontecida pelo bombardeio de perguntas sem sentido e sem resposta. Não sabia se ia "tocando em frente", como dizia aquela música tão bonita na voz do Almir Sater - ou se tentaria investigar mais aprofundadamente os acontecimentos.
Não. De nada adiantaria. Às favas com a investigação! Que isso se tornasse mais uma das situações com as quais ela aprendera a fazer malabares: sempre jogando para cima, com a esperança de que pudessem flutuar ou sumir, simplesmente. Mas que, impreterivelmente, a gravidade jogava de volta - mesmo quando a sensação de imaginar que o problema estava no ar, e não em suas mãos, parecia reconfortante.
E ela leu Alberto Caeiro, desistiu da metafísica e concluiu que a vida é, de fato, assim:
domingo, 4 de setembro de 2011
Sem aviso - ou - Olhai os lírios do campo
Desde que o samba é samba é assim: as coisas mudam e leva-se tempo para acostumar.
Não foi diferente para ele desta vez. Por um segundo imaginou as coisas sendo como antes. Leveza, calmaria, eu-te-conheço-você-me-conhece. O tempo levando embora segundos muito parecidos com os de ontem. Não contava com ela.
A moça do casaco florido, da boca torta, dos olhos verdes. Ela era não-sei-o-quê, ria alto, olhava com o canto dos olhos, via com as mãos, mexia nos cabelos. Ela desconcertava. Assuntos medianos, estatura idem. Tinha ruga na testa, sobrancelha por tirar.
Mas tinha nome de personagem de romance, leveza de alma, carinha de moleca e uma pintinha na palma da mão. Quem era ela? Quem ela achava que era? Não tinha direito! Entrar sem pedir!
Ele não dorme mais. E está tentando entender. Folheia livros, assiste a filmes, ouve músicas - mas não a entende. Sofre por isso.
Ela o olha e pensa: "Sou Macabéa". Ele a vê e suspira: "Clarissa".
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