quarta-feira, 27 de julho de 2011

"Cá com meus botões" - ou - "Escolhas que nos moldam"

Enquanto a mãe costurava, a garotinha mexia nas caixas de botões. Sim, a mãe tinha muitos botões, coloridos, com formatos inusitados e materiais interessantes. Guardava-os em uma caixa cor de rosa. Imaginava que a mãe faria muitas roupas lindas, já que a quantidade e a diversidade de botões era enorme. Brincava de imaginar que tipo de criação deveria receber aquelas pecinhas tão delicadas, coloridas. Deduzia cores, tecidos, modelos, corpos. Notava a destreza com que a mãe pisava no pedal da máquina enquanto manuseava cuidadosamente o tecido sob a agulha.Suas bonecas ganhavam roupinhas de retalhos. Achava bonito ter brinquedo que combinasse com ela.
Cresceu rodeada de alunas de costura, porque acompanhava a mãe no curso. Adorava a mesa enorme em que a Dona Branca reunia todas as pupilas para fazer moldes no papel pardo. Só não gostava do ritual de prender os moldes no tecido com agulhas. Sempre detestou. Não sabia bem por que. Aflição por ver todas com as pecinhas na boca, como se fosse, de fato, necessário o ritual.
Resolveu, certo dia, pôr agulhas na boca e se fingir "mamãe costureira" para fazer os modelitos das bonecas. Gosto gelado, sensação confusa.
Deixou de ter aflição: admirava, a partir disso, a caixa de botões e a de agulhas. Mas não viu função no ritual. Até hoje, não entende.
O tempo passou. A mãe não costura mais - a visão não ajuda. A questão da agulha foi enterrada. Mas por que a fascinação por botões? Por miudezas?
Tentou dar explicações pseudopoéticas: botões, além de úteis, podem embelezar os trajes - como as pequenas coisas embelezam a vida. Não era isso...
Atreveu-se a fazer deduções psicológicas: talvez tivesse algum transtorno, preocupação excessiva com detalhes. Coisa de autismo. Preocupar-se mais com o botão do que com a roupa. Também não era isso.
Por fim, tentou resumir racionalmente: porque, de fato, a mãe comprava botões bonitos, coloridos, chamativos. Qualquer criança acharia diferente.
Independentemente disso, criou uma memória associativa: não importa onde, como, em quem - sempre associa botões diferentes à infância passada ao lado da mãe costureira. Tudo graças às escolhas inusitadas.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A arte do não dizer - ou - E fica assim...

As palavras ficaram presas na garganta, penduradas na língua, escondidas atrás dos dentes. Talvez por não saber escolher, até por não saber ponderar o que pode ou não ser dito. Melindres, muitos.
Não correr o risco de parecer vulnerável além da conta. Não se entregar. Não confessar. Eis outros motivos.
De qualquer forma, ficou o que não foi dito no lugar daquilo que deveria ser gritado.
Se houver, fica para a próxima vez.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O possível e o provável - ou - Todas as impressões ficam

Deitou-se e ficou pensando na vida. Eis que um pensamento tomou conta dos outros: a sutil (mas importante) diferença entre o que é "possível" e o que é "provável". Sabia que não existem sinônimos perfeitos. Mas também sabia que as pessoas usam uma palavra pela outra sem levar em consideração a distância semântica que as separa.
Existem, por exemplo, sonhos possíveis. Que não necessariamente são sonhos prováveis. E vice-versa, é claro. Pensa se prefere o que é possível ou o que é provável. Teima em separar em categorias as escolhas possíveis e as prováveis na vida.
Possível definir? Cansa e resolve dormir. E é bem provável que a dúvida continue.

sábado, 2 de julho de 2011

Lemas árcades- ou - Ostentação para principiantes

Pipocam muitos temas na cabeça. Escolho, a esmo, um: a nova riqueza. O novo rico é, via de regra, alguém que, já tendo sido pobre, vê-se em condições financeiras bem melhores (talvez estáveis) e quer anunciar ao mundo que deixou de passar vontade. Tal atitude costuma vir acompanhada de uma série de exageros e de exibicionismo: é preciso ter tudo o que é novo, caro, badalado e modernoso.
Eis que a matéria é, obviamente, o que se vislumbra do mundo dos já chamados "emergentes" - atuais "diferenciados". A essência, infelizmente, também é corrompida pelo apelo excessivo do ideal de posse/posso. Só os que não fazem parte do tal mundo da nova riqueza - ou os que, independentemente do mundo de origem, possuem sensibilidade intacta para perceber as nuances de comportamento - conseguem perceber que a ação de ostentar está indissociavelmente ligada a algum problema que um bom psicanalista daria cabo em alguns anos de tratamento.
É, no mínimo, muito feio, ostentar qualquer coisa material num mundo capitalista de indiferenças. Estúpido, grosseiro, incoerente, insensato - talvez palavras melhores do que o "feio" da frase anterior.
Mas, como boa unespiana que fui, também sei que o extremo oposto é igualmente ridículo: envergonhar-se do que se conquistou, do que se tem - é de dar pena. Lembro-me de que qualquer um com celular (não importava qual) andando pelo campus nos idos de 2001 era visto como "porco capitalista".
Conclusões deste texto desconexo? Poucas. Só me pergunto se, no tempo de Tomás Antônio Gonzaga, Bocage e Rousseau, os caras do "Aurea mediocritas" e do "Inutilia truncat", quando não existiam novos ricos, a busca pelo equilíbrio parecia tão impossível quanto é hoje.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Falso blasé - ou - No tempo de colégio...

Andando por aí, chutando pedrinhas, arriscando assobios e pensamentos, um pedacinho dela veio à tona. Ah, aquele jeito tímido de olhar sem encarar, tão peculiarmente dela, tão conhecidamente único. Lembrou-se de que a característica que a definia mais costumeiramente entre aqueles que, sobreviventes do passado, puxavam-na na memória era justamente essa: o olhar. A timidez do olhar. Blasé?
Não mudou: lapidou, no entanto. Usa, agora, a grandeza verde-azul com ar de quem se nega a ser desmistificada.
Danada, ela. E nem (ou bem?) sabe o poder que tem.

domingo, 29 de maio de 2011

RSVP - ou - Incompetência social

A moça recebeu com dois meses de antecedência o convite. "RSVP". A sigla intrigou-a. Foi procurar (a ignorância nossa de cada dia foi solucionada com esse tal de Google). Confirmou, então, a presença - era o que pedia a sigla francesa (ela achava fracês tão chique, tão melhor, tão distante dela).

sexta-feira, 20 de maio de 2011

As fronteiras do acaso - ou - Acerca do "se"

Não é possível saber com propriedade se algo que nos acontece é fruto do acaso ou apenas uma sequência matemática possível pelas nossas escolhas. Entretanto, fato é que algumas coisas acontecem no meu coração que nem o Caetano sentiu quando cruzou a Ipiranga com a Avenida São João. Nem ele, nem ninguém. Coisa do grupo dos inexplicáveis.
E eu sou daquelas, infelizmente, que tenta entender. Tsc. Tentar entender é das piores coisas pra alguém que quer ser feliz. Estou na fase do aprender a desaprender: tentando me desapegar da ideia de que tudo deve ter uma explicação plausível. Fase 1.
Engraçado, no entanto, é pensar que certas coisas inesperadas têm me acontecido. Não sei se foram originadas pelas minhas pequenas escolhas cotidianas, se foram traçadas, se previstas pelo bruxo (esta parte pede um post separado, futuro).
Explicando o mito do Édipo Rei para os meus alunos, ouvi a pergunta: "mas será que tudo aconteceu porque era o destino, ou se o fato de saber o futuro direcionou o fim?". A discussão continuou e me fez pensar no acaso, nas previsões, no futuro. As ironias. "A cartomante", do Machado. "A hora da estrela", da Clarice.
Concluo, por enquanto, que há uma fronteira sutil entre o acaso e a escolha.
E se.
Nota metalinguística: post escrito depois de assistir novamente ao filme "Infidelidade".