domingo, 18 de setembro de 2011

A arte dos malabares - ou - Reinvenção de G.H.

, mas como pode deixar de viver algo que não tinha consciência de viver? E por acaso se deixa algo sem notar que se está deixando? Acaso imaginavam que ela, tão inocente por fazer apenas aquilo que achava certo, tinha como saber que algo podia dar errado?
Entontecida pelo bombardeio de perguntas sem sentido e sem resposta. Não sabia se ia "tocando em frente", como dizia aquela música tão bonita na voz do Almir Sater - ou se tentaria investigar mais aprofundadamente os acontecimentos.
Não. De nada adiantaria. Às favas com a investigação! Que isso se tornasse mais uma das situações com as quais ela aprendera a fazer malabares: sempre jogando para cima, com a esperança de que pudessem flutuar ou sumir, simplesmente. Mas que, impreterivelmente, a gravidade jogava de volta - mesmo quando a sensação de imaginar que o problema estava no ar, e não em suas mãos, parecia reconfortante.
E ela leu Alberto Caeiro, desistiu da metafísica e concluiu que a vida é, de fato, assim:

domingo, 4 de setembro de 2011

Sem aviso - ou - Olhai os lírios do campo

Desde que o samba é samba é assim: as coisas mudam e leva-se tempo para acostumar.
Não foi diferente para ele desta vez. Por um segundo imaginou as coisas sendo como antes. Leveza, calmaria, eu-te-conheço-você-me-conhece. O tempo levando embora segundos muito parecidos com os de ontem. Não contava com ela.
A moça do casaco florido, da boca torta, dos olhos verdes. Ela era não-sei-o-quê, ria alto, olhava com o canto dos olhos, via com as mãos, mexia nos cabelos. Ela desconcertava. Assuntos medianos, estatura idem. Tinha ruga na testa, sobrancelha por tirar.
Mas tinha nome de personagem de romance, leveza de alma, carinha de moleca e uma pintinha na palma da mão. Quem era ela? Quem ela achava que era? Não tinha direito! Entrar sem pedir!
Ele não dorme mais. E está tentando entender. Folheia livros, assiste a filmes, ouve músicas - mas não a entende. Sofre por isso.
Ela o olha e pensa: "Sou Macabéa". Ele a vê e suspira: "Clarissa".

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"Quem mexeu no meu autismo?" - ou - A insustentável defesa do ser

Metalinguagem talvez desnecessária para explicar os títulos de hoje. Dois nomes de livros - um bom, outro ruim, não nessa ordem. "Leveza", não "defesa". Liberdade poética. Porque o assunto aqui é mudança; então mudei até o título do Milan Kindera.
Mudei o layout disto aqui. Ainda não gostei. Não que gostasse demais do outro. Ainda estou em busca de algo melhor - metáfora desses dias, aliás.
Muito eficiente ter que mudar, inclusive, o layout deste espaço; faço faxina em tudo de uma vez. Então, aproveitando a toada de mil mudanças, foi esta também. Combo.
Preciso de um tempo para digerir estas metamorfoses todas, autista que sou. O blog é a menor delas: retomando o trabalho, começando mais uma graduação, ingressando em mais um cargo público, fazendo mais um curso à distância, vivendo escolhas pessoais, limpando gavetas, mudando prioridades, revendo conceitos, teorizando o "inteorizável". Demais.
Sem muitas explicações, para não pirar. Volto depois.
Um toque final: este post foi autobiográfico. Misturo. Geralmente, meus escritos são verborrágicos e ficcionais. Qualquer semelhança é mera coincidência. E tenho dito.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

"Cá com meus botões" - ou - "Escolhas que nos moldam"

Enquanto a mãe costurava, a garotinha mexia nas caixas de botões. Sim, a mãe tinha muitos botões, coloridos, com formatos inusitados e materiais interessantes. Guardava-os em uma caixa cor de rosa. Imaginava que a mãe faria muitas roupas lindas, já que a quantidade e a diversidade de botões era enorme. Brincava de imaginar que tipo de criação deveria receber aquelas pecinhas tão delicadas, coloridas. Deduzia cores, tecidos, modelos, corpos. Notava a destreza com que a mãe pisava no pedal da máquina enquanto manuseava cuidadosamente o tecido sob a agulha.Suas bonecas ganhavam roupinhas de retalhos. Achava bonito ter brinquedo que combinasse com ela.
Cresceu rodeada de alunas de costura, porque acompanhava a mãe no curso. Adorava a mesa enorme em que a Dona Branca reunia todas as pupilas para fazer moldes no papel pardo. Só não gostava do ritual de prender os moldes no tecido com agulhas. Sempre detestou. Não sabia bem por que. Aflição por ver todas com as pecinhas na boca, como se fosse, de fato, necessário o ritual.
Resolveu, certo dia, pôr agulhas na boca e se fingir "mamãe costureira" para fazer os modelitos das bonecas. Gosto gelado, sensação confusa.
Deixou de ter aflição: admirava, a partir disso, a caixa de botões e a de agulhas. Mas não viu função no ritual. Até hoje, não entende.
O tempo passou. A mãe não costura mais - a visão não ajuda. A questão da agulha foi enterrada. Mas por que a fascinação por botões? Por miudezas?
Tentou dar explicações pseudopoéticas: botões, além de úteis, podem embelezar os trajes - como as pequenas coisas embelezam a vida. Não era isso...
Atreveu-se a fazer deduções psicológicas: talvez tivesse algum transtorno, preocupação excessiva com detalhes. Coisa de autismo. Preocupar-se mais com o botão do que com a roupa. Também não era isso.
Por fim, tentou resumir racionalmente: porque, de fato, a mãe comprava botões bonitos, coloridos, chamativos. Qualquer criança acharia diferente.
Independentemente disso, criou uma memória associativa: não importa onde, como, em quem - sempre associa botões diferentes à infância passada ao lado da mãe costureira. Tudo graças às escolhas inusitadas.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A arte do não dizer - ou - E fica assim...

As palavras ficaram presas na garganta, penduradas na língua, escondidas atrás dos dentes. Talvez por não saber escolher, até por não saber ponderar o que pode ou não ser dito. Melindres, muitos.
Não correr o risco de parecer vulnerável além da conta. Não se entregar. Não confessar. Eis outros motivos.
De qualquer forma, ficou o que não foi dito no lugar daquilo que deveria ser gritado.
Se houver, fica para a próxima vez.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O possível e o provável - ou - Todas as impressões ficam

Deitou-se e ficou pensando na vida. Eis que um pensamento tomou conta dos outros: a sutil (mas importante) diferença entre o que é "possível" e o que é "provável". Sabia que não existem sinônimos perfeitos. Mas também sabia que as pessoas usam uma palavra pela outra sem levar em consideração a distância semântica que as separa.
Existem, por exemplo, sonhos possíveis. Que não necessariamente são sonhos prováveis. E vice-versa, é claro. Pensa se prefere o que é possível ou o que é provável. Teima em separar em categorias as escolhas possíveis e as prováveis na vida.
Possível definir? Cansa e resolve dormir. E é bem provável que a dúvida continue.

sábado, 2 de julho de 2011

Lemas árcades- ou - Ostentação para principiantes

Pipocam muitos temas na cabeça. Escolho, a esmo, um: a nova riqueza. O novo rico é, via de regra, alguém que, já tendo sido pobre, vê-se em condições financeiras bem melhores (talvez estáveis) e quer anunciar ao mundo que deixou de passar vontade. Tal atitude costuma vir acompanhada de uma série de exageros e de exibicionismo: é preciso ter tudo o que é novo, caro, badalado e modernoso.
Eis que a matéria é, obviamente, o que se vislumbra do mundo dos já chamados "emergentes" - atuais "diferenciados". A essência, infelizmente, também é corrompida pelo apelo excessivo do ideal de posse/posso. Só os que não fazem parte do tal mundo da nova riqueza - ou os que, independentemente do mundo de origem, possuem sensibilidade intacta para perceber as nuances de comportamento - conseguem perceber que a ação de ostentar está indissociavelmente ligada a algum problema que um bom psicanalista daria cabo em alguns anos de tratamento.
É, no mínimo, muito feio, ostentar qualquer coisa material num mundo capitalista de indiferenças. Estúpido, grosseiro, incoerente, insensato - talvez palavras melhores do que o "feio" da frase anterior.
Mas, como boa unespiana que fui, também sei que o extremo oposto é igualmente ridículo: envergonhar-se do que se conquistou, do que se tem - é de dar pena. Lembro-me de que qualquer um com celular (não importava qual) andando pelo campus nos idos de 2001 era visto como "porco capitalista".
Conclusões deste texto desconexo? Poucas. Só me pergunto se, no tempo de Tomás Antônio Gonzaga, Bocage e Rousseau, os caras do "Aurea mediocritas" e do "Inutilia truncat", quando não existiam novos ricos, a busca pelo equilíbrio parecia tão impossível quanto é hoje.