Em uma aula de Literatura Brasileira nos meus idos de graduação unespiana, minha professora teceu comentários interessantíssimos sobre a personagem Augusto Matraga, protagonista do conto "A hora e a vez de Augusto Matraga", do tão "vestibulável" Guimarães Rosa e seu "Sagarana". Nunca fui dessas apaixonadíssimas por Guimarães - sempre o vi como excelente, mas sem o "quê" que me cativasse. Ou seja: eu sou talvez a única professora de Literatura que não coloca num pedestal o médico-escritor-sertanejo-mineiro, embora reconheça sua grandeza. Entretanto, o tal Augusto me conquistou de imediato.
Na aula, minha professora fazia uma abordagem inovadora ao tratar uma obra tão explorada pelos professores de cursinhos pré-vestibulares - afinal, a intenção da graduação era apresentar novidades, escritores fora daquele rol de medalhões luso-brasileiros. E, de fato, falava com minúcias que as poucas aulas vestibulandas não poderiam abordar. Na maravilhosa aula, um comentário - que não foi exatamente dela, e sim uma citação de um crítico literário sobre a personagem - me prendeu a atenção e ficou gravado indelevelmente. Comparando nhô Augusto a Paulo Honório (protagonista de "São Bernardo", do merecidamente grandioso Graciliano Ramos), a professora disse que ambos se tratavam de "dínamos emperrados". E explicou, em seguida, a comparação: o dínamo, via de regra, transforma energia mecânica em energia elétrica. Tal energia transformada nada mais é do que transformar o movimento, a ação em energia propriamente dita. Entretanto, se emperrado, a energia mecânica aplicada não se transforma em nada. É desperdiçada. A ação não produz efeito algum, embora haja o esforço.
Fiquei com a imagem triste na memória. E confesso que a retomava toda vez que tentava educar, transformar, ensinar algo e não conseguia. Vez ou outra, então, relia "São Bernardo" e, mais raramente, o conto de "Sagarana", para reviver o dinamismo emperrado de seus protagonistas. Mas nunca imaginei que me sentiria tão familiarizada com a comparação quanto agora.
Sinto-me tão impotente diante de alguns acontecimentos recentes que tenho a impressão de que todos os meus esforços têm sido em vão. E tenho tanta vontade de agir, de criar, de transformar - e pouco acontece, em contrapartida.
Nunca me foi tão caro/claro um aprendizado unespiano.
Correndo o risco de ser repetitiva e, principalmente, literária demais, sempre sou Drummond porque "Tenho apenas duas mãos/ E o sentimento do mundo". Sinto muito, faço o que posso e emperro.
Embora eu saiba que a efemeridade do momento é certa, ainda me dói saber que quero tanto e pouco posso.