Eu fiquei muito tempo em coma. Induzido. Necessariamente. Um processo de cura, desintoxicação, autoconhecimento. Aquele clichê da lagarta e da borboleta, bem barato, é real. Curioso que estou borboleteando há tempos. Mas quis voar bastante antes de pousar e relatar. E vi coisa demais. Então, resumindo, por hoje digo que existe vida depois do caos. E ela é ótima, em muitas medidas.
Ironicamente, passando por outra renovação. Sem necessidade de coma induzido, dessa vez. Desafios profissionais, crescimento espiritual, equilíbrio psicológico, outras visões do amor. amor assim, sem maiúscula alegorizante, porque sim. Depois das decepções, todas as maiúsculas perderam o sentido. Talvez muitas minúsculas sejam mais significativas do que uma maiúscula destruidora, alfa. Ou não. Talvez só fosse a maiúscula errada. Talvez só fosse a alegoria errada.
Aprendendo e vivendo - e vice-versa.
Mas me admirando para caralho.
(Vai ter palavrão a partir de agora).
Volto logo. Vou borboletear.
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
terça-feira, 20 de junho de 2017
"Ainda há tempo" - ou - O insustentável peso do ser
Criolo disse que "as pessoas não são más, elas só estão perdidas. Ainda há tempo".
Há?
Aquele medo de o outro te olhar e te ver como você teme ser vista. Aquela sensação de ser nada ou quase nada. Aquela culpa que sempre te acompanhou. Aquela sensação de não merecer nada bom - porque seres pequenos e incompletos não merecem nada bom mesmo...
Pela janela, a um dia do inverno. Ao redor, bagunça de quem se sabota. Por dentro, só tristeza.
Não enxerga nada bom em si mesma? Não compreende o que faz? Não consegue manter o que faz feliz? Aquelas palavras duras são merecidas?
Não é questão de estar desconexa. É de saber que se iludiu - consigo mesma, especialmente.
Querer ser, querer ter o que julgava merecer...
"Você é um monte de farelos ambulante". "Você é exagerada". "Você não entende nada". Pensamentos fantasmas, esses.
Pesada, quando queria ser leveza. Olhar nos olhos e se enxergar tão menor. Não saber nunca expressar o que sente. Incompetente.
O espelho me chama de velha. Eu não tenho forças para discordar.
Ver tudo o que sempre quis se desfazer.
Entrega é isso: perder o chão.
Perdi...
Há?
Aquele medo de o outro te olhar e te ver como você teme ser vista. Aquela sensação de ser nada ou quase nada. Aquela culpa que sempre te acompanhou. Aquela sensação de não merecer nada bom - porque seres pequenos e incompletos não merecem nada bom mesmo...
Pela janela, a um dia do inverno. Ao redor, bagunça de quem se sabota. Por dentro, só tristeza.
Não enxerga nada bom em si mesma? Não compreende o que faz? Não consegue manter o que faz feliz? Aquelas palavras duras são merecidas?
Não é questão de estar desconexa. É de saber que se iludiu - consigo mesma, especialmente.
Querer ser, querer ter o que julgava merecer...
"Você é um monte de farelos ambulante". "Você é exagerada". "Você não entende nada". Pensamentos fantasmas, esses.
Pesada, quando queria ser leveza. Olhar nos olhos e se enxergar tão menor. Não saber nunca expressar o que sente. Incompetente.
O espelho me chama de velha. Eu não tenho forças para discordar.
Ver tudo o que sempre quis se desfazer.
Entrega é isso: perder o chão.
Perdi...
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
Malabares - ou - não saber
Eu sempre achei legal quem consegue fazer malabarismo. Sabe? Jogar malabares pra cima, controlar os movimentos, coordenar manobras... É lindo. O dinamismo, o lidar com tudo ao mesmo tempo. O que mais me encanta é isso, na verdade.
E eu sempre soube que não teria coordenação nunca pra fazer uma coisa dessas. Não falo das pequenas coisas: aquela ideia de fazer mil coisinhas cotidianas. Falo de coisa grande. Sentimento, por exemplo. Há quem consiga ser expert em fazer malabares com situações, expectativas, pessoas. É isso que me causa uma inveja doída.
Queria ser competente pra coordenar sentimentos, expectativas, frustrações.
Mas eu sou apenas uma mocinha não tão mocinha incompetente pra vida. Não entendo, não vejo nuances, não coordeno, não leio sinais.
Sou o máximo que consigo ser. Mas sou tão limitada! O meu melhor nunca é o bastante.
Hoje estou desconexa. Tão desconexa que tudo que queria era poder fazer malabares...
domingo, 7 de agosto de 2016
Julieta - ou - Culpa católica
Depois de sei lá quanto tempo, ela foi ao cinema. Sozinha. Comprou bilhete pela internet. E escolheu assistir a Almodóvar.
Ficou pensando que talvez a última vez num cinema tivesse sido para assistir a Almodóvar também - pelo menos essa era a última lembrança. "A pele que habito". Na ocasião, saiu do cinema com uma sensação de desconforto e catarse.
Chegou mais cedo, retirou o bilhete e fumou o último cigarro antes de entrar. Foi uma das primeiras pessoas a entrar na sala. Teve tempo de ver trailers, silenciar o celular e pensar que era reconfortante estar ali, sozinha.
Saiu da sala pensando na culpa que toda mulher católica carrega, inevitavelmente. Reconheceu-se por inúmeras vezes na protagonista, mas por motivos diferentes. Poderia ser ela, sua mãe, sua melhor amiga. Poderia ser a história dela. Tinha tudo para ser. Mas ela nunca tinha tido filhos, nunca teve uma grande perda. As pequenas, juntas, foram intensas.
Caminhou pensando nas metáforas do filme. No mar, na busca pela fêmea, na morte. Nas pequenas mortes. Por uns minutos, sentiu uma angústia por ter entendido muita coisa que empurrou por tanto tempo. Mas a sensação de finalmente entender que não há muito a ser entendido a reconfortou.
Ficou, então, andando sem muito rumo por algumas horas. Voltando para casa, serviu-se de uma boa dose de uísque e deitou-se no sofá. Sentia-se feliz, mas em um cemitério. Olhou tudo em volta que não significava mais nada. Estranhamento e confuso conforto. Queria poder chorar, mas não conseguia. Não estava triste. Seria melhor se estivesse? Só pensou nas possibilidades. Sem culpa. Finalmente.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Brega - ou - coisas que queremos esquecer lembrando
Na minha infância, em algum momento, uma novela fez muito sucesso na Rede Globo. "Brega e Chique" era o nome. Eu não me lembro da novela, nem sei se assistia, mas minha tia Meire, casada com o tosquíssimo do meu tio Alaor, com certeza assistia. E não sei bem ao certo o porquê, mas ela resolveu me chamar de "Brega".
Meu pai dizia que era porque a dupla feminina que dava nome à trama era composta por uma morena, "chique", e uma loira - a "brega". E esse seria o motivo do tal apelido. Mas o que leva uma adulta, também loira, mas platinadíssima e absurdamente brega, a apelidar a sobrinha criancinha de "brega" só a Meire poderia responder. E nunca o fez.
Fato é que por algum tempo meu pai me chamou de brega. E o tempo fez com que a voz dele transformasse a palavra em algo vazio do seu significado original. Quase um cafuné.
E isso me reforça a importância do meu pai, o atenuador de crises, o neutralizador de maldades.
Mas também me faz pensar no que sobrou de "brega" na mulher de hoje.
Ao pé da letra, sou brega em muita coisa. Música, roupa, demonstração de sentimento. Talvez "piegas" seja mais apropriado. Mas já que "brega" se ressignificou, por que não incluir a pieguice também no termo?
Enfim... Hoje não dormi pensando na infância, no meu pai, nas coisas que sinto e faço. E voltei a ser a menininha boba que não entende a grosseria do mundo porque sempre teve a proteção do amor.
Voltei a ser a menininha carente de colo da infância na chácara com coelhos e cachorros de estimação, subindo no pé de seriguela e tendo medo do lagarto teiú.
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Imitation game - ou - Saga por saga, eu prefiro as novas.
Poliana despertou de um sono profundo. Saiu/caiu da cama e olhou para a parede da caverna. Seu amigo Platão gritou o nome dela no portão. Danado, queria assustá-la. Daqueles sustos sartreanos, clariceanos.
Letárgica, demorou dezesseis anos até chegar ao portão. No caminho, quase em frente à saída, já pressentiu o estranhamento. Um calor diferente, uma luminosidade inovadora, assustadoramente nova. Seus olhos recém-despertos não queriam lidar com aquela visão tão solar, tão quente.
Resolveu voltar. O aconchego da caverna a fez temer. Tão bom voltar ao ventre, à escuridão do ventre.
Mas o estrago estava feito. Platão chamou novamente. Dessa vez o redemoinho no estômago não se acalentava nem com a familiaridade do espaço conhecido. Sem abrir os olhos, cheia de medo e paradoxalmente disposta, foi tateando as paredes da caverna, de olhos bem fechados, guiando-se pela sensação de calor que vinha da entrada. Saiu e sentiu o sol. Abriu os olhos e não enxergou nada. Não sabe quanto tempo demorou para , cabisbaixa, voltar a ver.
A primeira imagem foi amarela: a blusa solar que vestia.
Platão, observando o processo, riu. "Você sempre teve alma solar, mas precisou sair sozinha ali de dentro pra entender isso. E quanto ao futuro?"
sábado, 5 de outubro de 2013
Cento e oitenta graus - ou - Reclassificando
Eu tenho uma teoria. Quando uma amizade começa a degringolar, há apenas duas saídas: ou se corta de uma vez por ter morrido a origem do carinho, ou se reclassifica a amizade.
Há pessoas que não são amigas incondicionalmente. Há pessoas que só "servem" para falarmos de trabalho, ou de cinema, ou de bobagens, ou de assuntos específicos quaisquer. E há os amigos. Já reclassifiquei muita gente em 2015. Amigos que imaginava serem medianos agora são essenciais.E muita gente tão importante hoje está um degrau abaixo.
Há pessoas que não são amigas incondicionalmente. Há pessoas que só "servem" para falarmos de trabalho, ou de cinema, ou de bobagens, ou de assuntos específicos quaisquer. E há os amigos. Já reclassifiquei muita gente em 2015. Amigos que imaginava serem medianos agora são essenciais.E muita gente tão importante hoje está um degrau abaixo.
Jogar fora? Só em casos extremos. Sem essas efemeridades, mal do século. Reclassificação é respeito: pela história, mas principalmente por mim.
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