terça-feira, 1 de outubro de 2019

Porquinho Da Índia - ou - sobre o não estar

“Você já viu ‘O poeta do castelo’?”, foi a pergunta que o PEB atencioso fez. Já tinha visto, mas não se lembraria disso até rever. Chegou em casa, procurou no YouTube. Assistiu de novo. Ficou pensando nas aulas de Literatura. Já foi uma boa professora. Interpretava as obras de vestibular, falava com amor. Falou tantas vezes do “Libertinagem”. Sentiu saudade e dormiu.
Dias se passaram. Trabalhou muito, comeu muito, bebeu um pouco, saiu. Beijou, transou, acreditou.
Ficou pensando naquele poema do porquinho-da-índia. Era isso. 
De repente, alguns pensamentos fantasmas do passado. Era isso. 
Não sabe jogar num mundo de jogadores. 
A vida, minha filha, é respiro, pisco, crença e conta. Mas é linda. Sigamos. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

AmarElo - ou - Backup

Desconstruidona da porra, ela. Agora. Até que veio a tentativa de backup. 
Quis comprar um celular novo. O último modelo não cabia no orçamento, mas escolheu um bem legal. Aparência similar, mesmo tamanho - quase autista. Queria o backup de tudo - bem autista. Muda para o novo e carrega tudo. Significativo, isso.
Por essas coisas do destino, descobriu que não fazia backup do celular desde 2017. Então apertou o enter: que o backup comece. 
Muitas horas depois, quase dias, nada de dar certo. Backup pela metade. Resolveu puxar só o essencial, ou menos do que isso - ansiedade pela troca. 
O celular usado, como sempre, passaria a ser da mãe. Restava apagar tudo. 
Tentou fazer do jeito convencional: salvar tudo na nuvem e restaurar. Por essas coisas do destino, não conseguiu. Horas tentando e nada.
Cansada, limitou-se a tentar novamente no fim de semana. E foi aí. O momento.
Enquanto buscava o sono, resolveu mexer em arquivos antigos. Caçou o contato. Releu mensagens de WhatsApp. Durante a leitura, uma sensação esquisita, desconforto. Não era reviver: era ver. 
Sentiu-se como Miguilim, colocando os óculos pela primeira vez. De início, estranhamento. Viu-se de fora. Não perdeu a imagem de quem viveu, mas conseguiu se afastar o suficiente para ver o drama, os exageros, os erros. Sem culpar. Só viu. Pensou em tudo que poderia ser diferente se ela vivesse as mesmas coisas hoje. 
Refletiu: fez o que conseguiu com o que tinha, com o que era. E era isso: o melhor que conseguia fazer. 
Sentiu um orgulho bem grande por ter conseguido ter uma visão autocrítica não destrutiva. Com empatia racional, talvez. 
Agridoce: tanto orgulho do crescimento, tanta angústia por ter perdido algo incomparável. 
Resolveu respirar, tentar dormir.
Ainda não fez backup.
E o que fazer com esse backup? Esse oposto de “Brilho Eterno”?

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

De volta - ou - “O sol há de brilhar mais uma vez”

Eu fiquei muito tempo em coma. Induzido. Necessariamente. Um processo de cura, desintoxicação, autoconhecimento. Aquele clichê da lagarta e da borboleta, bem barato, é real. Curioso que estou borboleteando há tempos. Mas quis voar bastante antes de pousar e relatar. E vi coisa demais. Então, resumindo, por hoje digo que existe vida depois do caos. E ela é ótima, em muitas medidas.
Ironicamente, passando por outra renovação. Sem necessidade de coma induzido, dessa vez. Desafios profissionais, crescimento espiritual, equilíbrio psicológico, outras visões do amor. amor assim, sem maiúscula alegorizante, porque sim. Depois das decepções, todas as maiúsculas perderam o sentido. Talvez muitas minúsculas sejam mais significativas do que uma maiúscula destruidora, alfa. Ou não. Talvez só fosse a maiúscula errada. Talvez só fosse a alegoria errada.
Aprendendo e vivendo - e vice-versa.
Mas me admirando para caralho.
(Vai ter palavrão a partir de agora).
Volto logo. Vou borboletear.

terça-feira, 20 de junho de 2017

"Ainda há tempo" - ou - O insustentável peso do ser

Criolo disse que "as pessoas não são más, elas só estão perdidas. Ainda há tempo".
Há?

Aquele medo de o outro te olhar e te ver como você teme ser vista. Aquela sensação de ser nada ou quase nada. Aquela culpa que sempre te acompanhou. Aquela sensação de não merecer nada bom - porque seres pequenos e incompletos não merecem nada bom mesmo...

Pela janela, a um dia do inverno. Ao redor, bagunça de quem se sabota. Por dentro, só tristeza.

Não enxerga nada bom em si mesma? Não compreende o que faz? Não consegue manter o que faz feliz? Aquelas palavras duras são merecidas?

Não é questão de estar desconexa. É de saber que se iludiu - consigo mesma, especialmente.

Querer ser, querer ter o que julgava merecer...

"Você é um monte de farelos ambulante". "Você é exagerada". "Você não entende nada". Pensamentos fantasmas, esses.

Pesada, quando queria ser leveza. Olhar nos olhos e se enxergar tão menor. Não saber nunca expressar o que sente. Incompetente.

O espelho me chama de velha. Eu não tenho forças para discordar.

Ver tudo o que sempre quis se desfazer.

Entrega é isso: perder o chão.

Perdi...

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Malabares - ou - não saber

Eu sempre achei legal quem consegue fazer malabarismo. Sabe? Jogar malabares pra cima, controlar os movimentos, coordenar manobras... É lindo. O dinamismo, o lidar com tudo ao mesmo tempo. O que mais me encanta é isso, na verdade.
E eu sempre soube que não teria coordenação nunca pra fazer uma coisa dessas. Não falo das pequenas coisas: aquela ideia de fazer mil coisinhas cotidianas. Falo de coisa grande. Sentimento, por exemplo. Há quem consiga ser expert em fazer malabares com situações, expectativas, pessoas. É isso que me causa uma inveja doída.
Queria ser competente pra coordenar sentimentos, expectativas, frustrações. 
Mas eu sou apenas uma mocinha não tão mocinha incompetente pra vida. Não entendo, não vejo nuances, não coordeno, não leio sinais.
Sou o máximo que consigo ser. Mas sou tão limitada! O meu melhor nunca é o bastante.


Hoje estou desconexa. Tão desconexa que tudo que queria era poder fazer malabares... 

domingo, 7 de agosto de 2016

Julieta - ou - Culpa católica

Depois de sei lá quanto tempo, ela foi ao cinema. Sozinha. Comprou bilhete pela internet. E escolheu assistir a Almodóvar.
Ficou pensando que talvez a última vez num cinema tivesse sido para assistir a Almodóvar também - pelo menos essa era a última lembrança. "A pele que habito". Na ocasião, saiu do cinema com uma sensação de desconforto e catarse. 

Chegou mais cedo, retirou o bilhete e fumou o último cigarro antes de entrar. Foi uma das primeiras pessoas a entrar na sala. Teve tempo de ver trailers, silenciar o celular e pensar que era reconfortante estar ali, sozinha.

Saiu da sala pensando na culpa que toda mulher católica carrega, inevitavelmente. Reconheceu-se por inúmeras vezes na protagonista, mas por motivos diferentes. Poderia ser ela, sua mãe, sua melhor amiga. Poderia ser a história dela. Tinha tudo para ser. Mas ela nunca tinha tido filhos, nunca teve uma grande perda. As pequenas, juntas, foram intensas. 
Caminhou pensando nas metáforas do filme. No mar, na busca pela fêmea, na morte. Nas pequenas mortes. Por uns minutos, sentiu uma angústia por ter entendido muita coisa que empurrou por tanto tempo. Mas a sensação de finalmente entender que não há muito a ser entendido a reconfortou. 
Ficou, então, andando sem muito rumo por algumas horas. Voltando para casa, serviu-se de uma boa dose de uísque e deitou-se no sofá. Sentia-se feliz, mas em um cemitério. Olhou tudo em volta que não significava mais nada. Estranhamento e confuso conforto. Queria poder chorar, mas não conseguia. Não estava triste. Seria melhor se estivesse? Só pensou nas possibilidades. Sem culpa. Finalmente. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Brega - ou - coisas que queremos esquecer lembrando

Na minha infância, em algum momento, uma novela fez muito sucesso na Rede Globo. "Brega e Chique" era o nome. Eu não me lembro da novela, nem sei se assistia, mas minha tia Meire, casada com o tosquíssimo do meu tio Alaor, com certeza assistia. E não sei bem ao certo o porquê, mas ela resolveu me chamar de "Brega". 
Meu pai dizia que era porque a dupla feminina que dava nome à trama era composta por uma morena, "chique", e uma loira - a "brega". E esse seria o motivo do tal apelido. Mas o que leva uma adulta, também loira, mas platinadíssima e absurdamente brega, a apelidar a sobrinha criancinha de "brega" só a Meire poderia responder. E nunca o fez.
Fato é que por algum tempo meu pai me chamou de brega. E o tempo fez com que a voz dele transformasse a palavra em algo vazio do seu significado original. Quase um cafuné. 
E isso me reforça a importância do meu pai, o atenuador de crises, o neutralizador de maldades.
Mas também me faz pensar no que sobrou de "brega" na mulher de hoje.
Ao pé da letra, sou brega em muita coisa. Música, roupa, demonstração de sentimento. Talvez "piegas" seja mais apropriado. Mas já que "brega" se ressignificou, por que não incluir a pieguice também no termo?
Enfim... Hoje não dormi pensando na infância, no meu pai, nas coisas que sinto e faço. E voltei a ser a menininha boba que não entende a grosseria do mundo porque sempre teve a proteção do amor. 
Voltei a ser a menininha carente de colo da infância na chácara com coelhos e cachorros de estimação, subindo no pé de seriguela e tendo medo do lagarto teiú.