segunda-feira, 27 de dezembro de 2021
“Peixe Grande” - ou - O que existe no que não é dito
Desde que vi “Peixe Grande”, fiz as pazes com a imagem que tinha do meu pai. Em essência, ele é aquele: cheio de histórias, que acredita num mundo que não acredita nele. De um amor demonstrado pelo serviço, pelo cuidado. Raramente falado. Mas sentido em cada gesto. De uns anos para cá, o respeito pela mulher que me tornei. Sem idealizações de ambos os lados: eu fumo um cigarro ao lado dele, que odeia o fato de eu fumar, mas falamos das coisas dele como se eu fosse uma confidente - embora sempre haja o desejo velado dele de que eu volte a vê-lo como herói (o que nunca vai acontecer). Como eu o vejo hoje é mais real, mais verdadeiro: um homem idealista, cheio de projetos frustrados, com um coração maior do que o mundo merece, mas que eu amo justamente por isso. Por nunca desistir do mundo. Por não desistir de ser admirado. Seria mais fácil se ele entendesse que a admiração não precisa dos seus grandes gestos, dos seus projetos sendo bem sucedidos. O fato de ele ter sido sempre um pai excepcional deveria valer. Ele me transformou na mulher que eu sou. Minhas qualidades são todas dele (os defeitos, todos da minha mãe). E essa angústia de vê-lo não entender machuca um pouco. Mas seguimos pensando que não haverá despedida: ele será imortal, e eu sempre poderei contar com a existência dele fazendo o mundo ser um lugar possível de acreditarmos.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
Latifúndio - ou - Sem diagnóstico
O sol de praia invade o sono pela fresta da cortina que nunca se fecha totalmente. O primeiro pensamento é sempre de “perdi hora?”. Dormiu pensando nas mil coisas a fazer do dia seguinte. Acorda letárgica e faz o café enquanto olha as unhas compridas e sempre por fazer. A bolsa a caminho do trabalho sempre cheia. Escadas demais durante o dia. Cumpre tarefas com orgulho. Cigarros. Nunca sabe como sujou tanto as lentes dos óculos. Sorrisos cheios de dentes.
Internet lenta. Tranca a porta e sai.
O dia passa com mil tarefas resolvidas e mil outras a resolver. Um latifúndio de trabalho. Entre uma fresta e outra de pensamentos, aquilo. O que não entende. O que está sem estar. Sem diagnóstico.
terça-feira, 5 de novembro de 2019
Encore un sour - ou - Playlist
Ninguém é totalmente livre. Aquelas músicas que sempre se relacionam a alguém, a alguma experiência. A letra. A música que tocou bem naquela hora. Aquela música que diz tudo o que você queria dizer e não teve oportunidade. Aquela música que você dedicou a alguém. Aquela música da playlist das primeiras vezes. Tantas palavras não ditas. Tão “Futuros amantes”. Tão “Um girassol da cor de seu cabelo”. Tão “Let me Love you”. Tão...
Talvez tenha sido pouco. Talvez tenha sido em vão. Músicas fantasmas. Assombrações do talvez.
Que passe. Que ressignifique.
terça-feira, 1 de outubro de 2019
Porquinho Da Índia - ou - sobre o não estar
“Você já viu ‘O poeta do castelo’?”, foi a pergunta que o PEB atencioso fez. Já tinha visto, mas não se lembraria disso até rever. Chegou em casa, procurou no YouTube. Assistiu de novo. Ficou pensando nas aulas de Literatura. Já foi uma boa professora. Interpretava as obras de vestibular, falava com amor. Falou tantas vezes do “Libertinagem”. Sentiu saudade e dormiu.
Dias se passaram. Trabalhou muito, comeu muito, bebeu um pouco, saiu. Beijou, transou, acreditou.
Ficou pensando naquele poema do porquinho-da-índia. Era isso.
De repente, alguns pensamentos fantasmas do passado. Era isso.
Não sabe jogar num mundo de jogadores.
A vida, minha filha, é respiro, pisco, crença e conta. Mas é linda. Sigamos.
sexta-feira, 6 de setembro de 2019
AmarElo - ou - Backup
Desconstruidona da porra, ela. Agora. Até que veio a tentativa de backup.
Quis comprar um celular novo. O último modelo não cabia no orçamento, mas escolheu um bem legal. Aparência similar, mesmo tamanho - quase autista. Queria o backup de tudo - bem autista. Muda para o novo e carrega tudo. Significativo, isso.
Por essas coisas do destino, descobriu que não fazia backup do celular desde 2017. Então apertou o enter: que o backup comece.
Muitas horas depois, quase dias, nada de dar certo. Backup pela metade. Resolveu puxar só o essencial, ou menos do que isso - ansiedade pela troca.
O celular usado, como sempre, passaria a ser da mãe. Restava apagar tudo.
Tentou fazer do jeito convencional: salvar tudo na nuvem e restaurar. Por essas coisas do destino, não conseguiu. Horas tentando e nada.
Cansada, limitou-se a tentar novamente no fim de semana. E foi aí. O momento.
Enquanto buscava o sono, resolveu mexer em arquivos antigos. Caçou o contato. Releu mensagens de WhatsApp. Durante a leitura, uma sensação esquisita, desconforto. Não era reviver: era ver.
Sentiu-se como Miguilim, colocando os óculos pela primeira vez. De início, estranhamento. Viu-se de fora. Não perdeu a imagem de quem viveu, mas conseguiu se afastar o suficiente para ver o drama, os exageros, os erros. Sem culpar. Só viu. Pensou em tudo que poderia ser diferente se ela vivesse as mesmas coisas hoje.
Refletiu: fez o que conseguiu com o que tinha, com o que era. E era isso: o melhor que conseguia fazer.
Sentiu um orgulho bem grande por ter conseguido ter uma visão autocrítica não destrutiva. Com empatia racional, talvez.
Agridoce: tanto orgulho do crescimento, tanta angústia por ter perdido algo incomparável.
Resolveu respirar, tentar dormir.
Ainda não fez backup.
E o que fazer com esse backup? Esse oposto de “Brilho Eterno”?
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
De volta - ou - “O sol há de brilhar mais uma vez”
Eu fiquei muito tempo em coma. Induzido. Necessariamente. Um processo de cura, desintoxicação, autoconhecimento. Aquele clichê da lagarta e da borboleta, bem barato, é real. Curioso que estou borboleteando há tempos. Mas quis voar bastante antes de pousar e relatar. E vi coisa demais. Então, resumindo, por hoje digo que existe vida depois do caos. E ela é ótima, em muitas medidas.
Ironicamente, passando por outra renovação. Sem necessidade de coma induzido, dessa vez. Desafios profissionais, crescimento espiritual, equilíbrio psicológico, outras visões do amor. amor assim, sem maiúscula alegorizante, porque sim. Depois das decepções, todas as maiúsculas perderam o sentido. Talvez muitas minúsculas sejam mais significativas do que uma maiúscula destruidora, alfa. Ou não. Talvez só fosse a maiúscula errada. Talvez só fosse a alegoria errada.
Aprendendo e vivendo - e vice-versa.
Mas me admirando para caralho.
(Vai ter palavrão a partir de agora).
Volto logo. Vou borboletear.
Ironicamente, passando por outra renovação. Sem necessidade de coma induzido, dessa vez. Desafios profissionais, crescimento espiritual, equilíbrio psicológico, outras visões do amor. amor assim, sem maiúscula alegorizante, porque sim. Depois das decepções, todas as maiúsculas perderam o sentido. Talvez muitas minúsculas sejam mais significativas do que uma maiúscula destruidora, alfa. Ou não. Talvez só fosse a maiúscula errada. Talvez só fosse a alegoria errada.
Aprendendo e vivendo - e vice-versa.
Mas me admirando para caralho.
(Vai ter palavrão a partir de agora).
Volto logo. Vou borboletear.
terça-feira, 20 de junho de 2017
"Ainda há tempo" - ou - O insustentável peso do ser
Criolo disse que "as pessoas não são más, elas só estão perdidas. Ainda há tempo".
Há?
Aquele medo de o outro te olhar e te ver como você teme ser vista. Aquela sensação de ser nada ou quase nada. Aquela culpa que sempre te acompanhou. Aquela sensação de não merecer nada bom - porque seres pequenos e incompletos não merecem nada bom mesmo...
Pela janela, a um dia do inverno. Ao redor, bagunça de quem se sabota. Por dentro, só tristeza.
Não enxerga nada bom em si mesma? Não compreende o que faz? Não consegue manter o que faz feliz? Aquelas palavras duras são merecidas?
Não é questão de estar desconexa. É de saber que se iludiu - consigo mesma, especialmente.
Querer ser, querer ter o que julgava merecer...
"Você é um monte de farelos ambulante". "Você é exagerada". "Você não entende nada". Pensamentos fantasmas, esses.
Pesada, quando queria ser leveza. Olhar nos olhos e se enxergar tão menor. Não saber nunca expressar o que sente. Incompetente.
O espelho me chama de velha. Eu não tenho forças para discordar.
Ver tudo o que sempre quis se desfazer.
Entrega é isso: perder o chão.
Perdi...
Há?
Aquele medo de o outro te olhar e te ver como você teme ser vista. Aquela sensação de ser nada ou quase nada. Aquela culpa que sempre te acompanhou. Aquela sensação de não merecer nada bom - porque seres pequenos e incompletos não merecem nada bom mesmo...
Pela janela, a um dia do inverno. Ao redor, bagunça de quem se sabota. Por dentro, só tristeza.
Não enxerga nada bom em si mesma? Não compreende o que faz? Não consegue manter o que faz feliz? Aquelas palavras duras são merecidas?
Não é questão de estar desconexa. É de saber que se iludiu - consigo mesma, especialmente.
Querer ser, querer ter o que julgava merecer...
"Você é um monte de farelos ambulante". "Você é exagerada". "Você não entende nada". Pensamentos fantasmas, esses.
Pesada, quando queria ser leveza. Olhar nos olhos e se enxergar tão menor. Não saber nunca expressar o que sente. Incompetente.
O espelho me chama de velha. Eu não tenho forças para discordar.
Ver tudo o que sempre quis se desfazer.
Entrega é isso: perder o chão.
Perdi...
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
Malabares - ou - não saber
Eu sempre achei legal quem consegue fazer malabarismo. Sabe? Jogar malabares pra cima, controlar os movimentos, coordenar manobras... É lindo. O dinamismo, o lidar com tudo ao mesmo tempo. O que mais me encanta é isso, na verdade.
E eu sempre soube que não teria coordenação nunca pra fazer uma coisa dessas. Não falo das pequenas coisas: aquela ideia de fazer mil coisinhas cotidianas. Falo de coisa grande. Sentimento, por exemplo. Há quem consiga ser expert em fazer malabares com situações, expectativas, pessoas. É isso que me causa uma inveja doída.
Queria ser competente pra coordenar sentimentos, expectativas, frustrações.
Mas eu sou apenas uma mocinha não tão mocinha incompetente pra vida. Não entendo, não vejo nuances, não coordeno, não leio sinais.
Sou o máximo que consigo ser. Mas sou tão limitada! O meu melhor nunca é o bastante.
Hoje estou desconexa. Tão desconexa que tudo que queria era poder fazer malabares...
domingo, 7 de agosto de 2016
Julieta - ou - Culpa católica
Depois de sei lá quanto tempo, ela foi ao cinema. Sozinha. Comprou bilhete pela internet. E escolheu assistir a Almodóvar.
Ficou pensando que talvez a última vez num cinema tivesse sido para assistir a Almodóvar também - pelo menos essa era a última lembrança. "A pele que habito". Na ocasião, saiu do cinema com uma sensação de desconforto e catarse.
Chegou mais cedo, retirou o bilhete e fumou o último cigarro antes de entrar. Foi uma das primeiras pessoas a entrar na sala. Teve tempo de ver trailers, silenciar o celular e pensar que era reconfortante estar ali, sozinha.
Saiu da sala pensando na culpa que toda mulher católica carrega, inevitavelmente. Reconheceu-se por inúmeras vezes na protagonista, mas por motivos diferentes. Poderia ser ela, sua mãe, sua melhor amiga. Poderia ser a história dela. Tinha tudo para ser. Mas ela nunca tinha tido filhos, nunca teve uma grande perda. As pequenas, juntas, foram intensas.
Caminhou pensando nas metáforas do filme. No mar, na busca pela fêmea, na morte. Nas pequenas mortes. Por uns minutos, sentiu uma angústia por ter entendido muita coisa que empurrou por tanto tempo. Mas a sensação de finalmente entender que não há muito a ser entendido a reconfortou.
Ficou, então, andando sem muito rumo por algumas horas. Voltando para casa, serviu-se de uma boa dose de uísque e deitou-se no sofá. Sentia-se feliz, mas em um cemitério. Olhou tudo em volta que não significava mais nada. Estranhamento e confuso conforto. Queria poder chorar, mas não conseguia. Não estava triste. Seria melhor se estivesse? Só pensou nas possibilidades. Sem culpa. Finalmente.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Brega - ou - coisas que queremos esquecer lembrando
Na minha infância, em algum momento, uma novela fez muito sucesso na Rede Globo. "Brega e Chique" era o nome. Eu não me lembro da novela, nem sei se assistia, mas minha tia Meire, casada com o tosquíssimo do meu tio Alaor, com certeza assistia. E não sei bem ao certo o porquê, mas ela resolveu me chamar de "Brega".
Meu pai dizia que era porque a dupla feminina que dava nome à trama era composta por uma morena, "chique", e uma loira - a "brega". E esse seria o motivo do tal apelido. Mas o que leva uma adulta, também loira, mas platinadíssima e absurdamente brega, a apelidar a sobrinha criancinha de "brega" só a Meire poderia responder. E nunca o fez.
Fato é que por algum tempo meu pai me chamou de brega. E o tempo fez com que a voz dele transformasse a palavra em algo vazio do seu significado original. Quase um cafuné.
E isso me reforça a importância do meu pai, o atenuador de crises, o neutralizador de maldades.
Mas também me faz pensar no que sobrou de "brega" na mulher de hoje.
Ao pé da letra, sou brega em muita coisa. Música, roupa, demonstração de sentimento. Talvez "piegas" seja mais apropriado. Mas já que "brega" se ressignificou, por que não incluir a pieguice também no termo?
Enfim... Hoje não dormi pensando na infância, no meu pai, nas coisas que sinto e faço. E voltei a ser a menininha boba que não entende a grosseria do mundo porque sempre teve a proteção do amor.
Voltei a ser a menininha carente de colo da infância na chácara com coelhos e cachorros de estimação, subindo no pé de seriguela e tendo medo do lagarto teiú.
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Imitation game - ou - Saga por saga, eu prefiro as novas.
Poliana despertou de um sono profundo. Saiu/caiu da cama e olhou para a parede da caverna. Seu amigo Platão gritou o nome dela no portão. Danado, queria assustá-la. Daqueles sustos sartreanos, clariceanos.
Letárgica, demorou dezesseis anos até chegar ao portão. No caminho, quase em frente à saída, já pressentiu o estranhamento. Um calor diferente, uma luminosidade inovadora, assustadoramente nova. Seus olhos recém-despertos não queriam lidar com aquela visão tão solar, tão quente.
Resolveu voltar. O aconchego da caverna a fez temer. Tão bom voltar ao ventre, à escuridão do ventre.
Mas o estrago estava feito. Platão chamou novamente. Dessa vez o redemoinho no estômago não se acalentava nem com a familiaridade do espaço conhecido. Sem abrir os olhos, cheia de medo e paradoxalmente disposta, foi tateando as paredes da caverna, de olhos bem fechados, guiando-se pela sensação de calor que vinha da entrada. Saiu e sentiu o sol. Abriu os olhos e não enxergou nada. Não sabe quanto tempo demorou para , cabisbaixa, voltar a ver.
A primeira imagem foi amarela: a blusa solar que vestia.
Platão, observando o processo, riu. "Você sempre teve alma solar, mas precisou sair sozinha ali de dentro pra entender isso. E quanto ao futuro?"
sábado, 5 de outubro de 2013
Cento e oitenta graus - ou - Reclassificando
Eu tenho uma teoria. Quando uma amizade começa a degringolar, há apenas duas saídas: ou se corta de uma vez por ter morrido a origem do carinho, ou se reclassifica a amizade.
Há pessoas que não são amigas incondicionalmente. Há pessoas que só "servem" para falarmos de trabalho, ou de cinema, ou de bobagens, ou de assuntos específicos quaisquer. E há os amigos. Já reclassifiquei muita gente em 2015. Amigos que imaginava serem medianos agora são essenciais.E muita gente tão importante hoje está um degrau abaixo.
Há pessoas que não são amigas incondicionalmente. Há pessoas que só "servem" para falarmos de trabalho, ou de cinema, ou de bobagens, ou de assuntos específicos quaisquer. E há os amigos. Já reclassifiquei muita gente em 2015. Amigos que imaginava serem medianos agora são essenciais.E muita gente tão importante hoje está um degrau abaixo.
Jogar fora? Só em casos extremos. Sem essas efemeridades, mal do século. Reclassificação é respeito: pela história, mas principalmente por mim.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Sobre o quase autismo - ou - Raízes do problema
O ano de 2013 tem sido de mudanças. De tudo. Estado civil, cidade, casa, apartamento, trabalho, estudo. Clarice e o seu "quanto ao futuro"...
Logo eu, uma autista leve, que se revira com qualquer mudança de rotina. Sofrimento, já esperado. Mas uma prova de que eu sou mais forte do que imaginava. Cada despedida do antes me causa uma angústia desmedida. Detesto desapegar. Mas sei que só esses chacoalhões me fazem sair do conforto. Não fosse assim, viveria sempre do mesmo jeito. Mas sofro.
Preciso pensar mais para escrever mais claramente sobre tudo isso. Por enquanto, agridoce.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Dínamo emperrado - ou - A saga
Em uma aula de Literatura Brasileira nos meus idos de graduação unespiana, minha professora teceu comentários interessantíssimos sobre a personagem Augusto Matraga, protagonista do conto "A hora e a vez de Augusto Matraga", do tão "vestibulável" Guimarães Rosa e seu "Sagarana". Nunca fui dessas apaixonadíssimas por Guimarães - sempre o vi como excelente, mas sem o "quê" que me cativasse. Ou seja: eu sou talvez a única professora de Literatura que não coloca num pedestal o médico-escritor-sertanejo-mineiro, embora reconheça sua grandeza. Entretanto, o tal Augusto me conquistou de imediato.
Na aula, minha professora fazia uma abordagem inovadora ao tratar uma obra tão explorada pelos professores de cursinhos pré-vestibulares - afinal, a intenção da graduação era apresentar novidades, escritores fora daquele rol de medalhões luso-brasileiros. E, de fato, falava com minúcias que as poucas aulas vestibulandas não poderiam abordar. Na maravilhosa aula, um comentário - que não foi exatamente dela, e sim uma citação de um crítico literário sobre a personagem - me prendeu a atenção e ficou gravado indelevelmente. Comparando nhô Augusto a Paulo Honório (protagonista de "São Bernardo", do merecidamente grandioso Graciliano Ramos), a professora disse que ambos se tratavam de "dínamos emperrados". E explicou, em seguida, a comparação: o dínamo, via de regra, transforma energia mecânica em energia elétrica. Tal energia transformada nada mais é do que transformar o movimento, a ação em energia propriamente dita. Entretanto, se emperrado, a energia mecânica aplicada não se transforma em nada. É desperdiçada. A ação não produz efeito algum, embora haja o esforço.
Fiquei com a imagem triste na memória. E confesso que a retomava toda vez que tentava educar, transformar, ensinar algo e não conseguia. Vez ou outra, então, relia "São Bernardo" e, mais raramente, o conto de "Sagarana", para reviver o dinamismo emperrado de seus protagonistas. Mas nunca imaginei que me sentiria tão familiarizada com a comparação quanto agora.
Sinto-me tão impotente diante de alguns acontecimentos recentes que tenho a impressão de que todos os meus esforços têm sido em vão. E tenho tanta vontade de agir, de criar, de transformar - e pouco acontece, em contrapartida.
Nunca me foi tão caro/claro um aprendizado unespiano.
Correndo o risco de ser repetitiva e, principalmente, literária demais, sempre sou Drummond porque "Tenho apenas duas mãos/ E o sentimento do mundo". Sinto muito, faço o que posso e emperro.
Embora eu saiba que a efemeridade do momento é certa, ainda me dói saber que quero tanto e pouco posso.
Na aula, minha professora fazia uma abordagem inovadora ao tratar uma obra tão explorada pelos professores de cursinhos pré-vestibulares - afinal, a intenção da graduação era apresentar novidades, escritores fora daquele rol de medalhões luso-brasileiros. E, de fato, falava com minúcias que as poucas aulas vestibulandas não poderiam abordar. Na maravilhosa aula, um comentário - que não foi exatamente dela, e sim uma citação de um crítico literário sobre a personagem - me prendeu a atenção e ficou gravado indelevelmente. Comparando nhô Augusto a Paulo Honório (protagonista de "São Bernardo", do merecidamente grandioso Graciliano Ramos), a professora disse que ambos se tratavam de "dínamos emperrados". E explicou, em seguida, a comparação: o dínamo, via de regra, transforma energia mecânica em energia elétrica. Tal energia transformada nada mais é do que transformar o movimento, a ação em energia propriamente dita. Entretanto, se emperrado, a energia mecânica aplicada não se transforma em nada. É desperdiçada. A ação não produz efeito algum, embora haja o esforço.
Fiquei com a imagem triste na memória. E confesso que a retomava toda vez que tentava educar, transformar, ensinar algo e não conseguia. Vez ou outra, então, relia "São Bernardo" e, mais raramente, o conto de "Sagarana", para reviver o dinamismo emperrado de seus protagonistas. Mas nunca imaginei que me sentiria tão familiarizada com a comparação quanto agora.
Sinto-me tão impotente diante de alguns acontecimentos recentes que tenho a impressão de que todos os meus esforços têm sido em vão. E tenho tanta vontade de agir, de criar, de transformar - e pouco acontece, em contrapartida.
Nunca me foi tão caro/claro um aprendizado unespiano.
Correndo o risco de ser repetitiva e, principalmente, literária demais, sempre sou Drummond porque "Tenho apenas duas mãos/ E o sentimento do mundo". Sinto muito, faço o que posso e emperro.
Embora eu saiba que a efemeridade do momento é certa, ainda me dói saber que quero tanto e pouco posso.
domingo, 7 de outubro de 2012
De como estamos - ou - De como não estamos
Eis que tudo se dissipa logo após o momento tênue. Tudo o que se tem é o instante. Tudo é volátil. Efemérides da vida. Correnteza.
Ao fechar a porta, a sensação de incerteza. Não ruim: vazia. Eis que cada instante suspenso ecoa. Ecoa tanto que, depois de tanta repetição, perde o sentido. Não por não valer, mas por não ser entendido.
Eu volto. Mais tarde. Quando mais instantes passarem e eu puder (não) entender melhor.
Ao fechar a porta, a sensação de incerteza. Não ruim: vazia. Eis que cada instante suspenso ecoa. Ecoa tanto que, depois de tanta repetição, perde o sentido. Não por não valer, mas por não ser entendido.
Eu volto. Mais tarde. Quando mais instantes passarem e eu puder (não) entender melhor.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Acerca da calmaria
Ciclicamente, eu sumi. Mas este tempo de calmaria foi de autoconhecimento. De acomodação de tantos sentimentos incompatíveis entre si. Organicamente falando, precisei de repouso para levantar. Penso que isso resume.
No mais, uma série grande de mudanças - ou uma série de grandes mudanças. Cidade, trabalho, estado civil, faculdade, talvez profissão.
Sou realmente paradoxal: busquei por muito tempo tudo isso, mas, agora que tudo está por acontecer, deu vontade de parar o tempo um pouquinho.
O que eu chamo jocosamente de "autismo meu" é isso: eu lido muito mal com mudanças, mesmo as mais esperadas. Sofro demais!
Trinta e um anos e eu não sei o que vou fazer longe do colo da família. Estão acabando os almoços prontos da mãe, as frutinhas cortadas no café da manhã pelo pai, as ajudas nos perrengues "informáticos" do irmão, o sossego de se saber protegida, segura. Conhecer como a palma da mão cada canto da casa, barulhinhos peculiares. Os animaizinhos de estimação. Uma história.
Escreverei mais um post sobre a dificuldade de dizer adeus - essa minha tão doída característica. Por enquanto digo que voltei. Porque não consigo deixar de escrever.
No mais, uma série grande de mudanças - ou uma série de grandes mudanças. Cidade, trabalho, estado civil, faculdade, talvez profissão.
Sou realmente paradoxal: busquei por muito tempo tudo isso, mas, agora que tudo está por acontecer, deu vontade de parar o tempo um pouquinho.
O que eu chamo jocosamente de "autismo meu" é isso: eu lido muito mal com mudanças, mesmo as mais esperadas. Sofro demais!
Trinta e um anos e eu não sei o que vou fazer longe do colo da família. Estão acabando os almoços prontos da mãe, as frutinhas cortadas no café da manhã pelo pai, as ajudas nos perrengues "informáticos" do irmão, o sossego de se saber protegida, segura. Conhecer como a palma da mão cada canto da casa, barulhinhos peculiares. Os animaizinhos de estimação. Uma história.
Escreverei mais um post sobre a dificuldade de dizer adeus - essa minha tão doída característica. Por enquanto digo que voltei. Porque não consigo deixar de escrever.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Versículo vinte-sículo vinte Século vinte e um - ou - inovações.
Pela primeira vez, postando algo via celular. Será apenas um teste, mas que fique registrado que, com 30 anos, ainda me bestifico com a tecnologia.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Platão acorrentado (e não Prometeu) - ou - Fiat lux
Em uma aula perdida em suas incontáveis memórias de aulas marcantes, aprendeu sobre Platão e o mito da caverna. Entendeu, então, que há caminhos sem volta. Conhecimento, por exemplo, é um desses caminhos. Conhecer ideias, culturas, pensamentos, erros. Saber.
Mas o saber que mais atormenta é, sem dúvida, o saber que se errou. E lidar com essa ideia é o grande desafio.
Errar e aceitar o fato. Aceitar, principalmente, que certos erros não podem ser corrigidos. Não há retratação: faz parte do pacote chamado "escolhas".
Resta uma dúvida: certos erros são, na metafórica narrativa platônica, a liberdade da caverna ou a prisão em suas mais obscuras profundezas?
Quem sabe, nenhum dos extremos seja a resposta. Mas há de haver mais luz nessa escuridão de dúvidas. E quem sabe a luz, neste caso, seja o tempo.
Mas o saber que mais atormenta é, sem dúvida, o saber que se errou. E lidar com essa ideia é o grande desafio.
Errar e aceitar o fato. Aceitar, principalmente, que certos erros não podem ser corrigidos. Não há retratação: faz parte do pacote chamado "escolhas".
Resta uma dúvida: certos erros são, na metafórica narrativa platônica, a liberdade da caverna ou a prisão em suas mais obscuras profundezas?
Quem sabe, nenhum dos extremos seja a resposta. Mas há de haver mais luz nessa escuridão de dúvidas. E quem sabe a luz, neste caso, seja o tempo.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Você também - ou - Aquela primeira vez
Procurava na bolsa a chave do carro. De nada adiantou colocar dois chaveiros, se a bolsa era grande daquele jeito - e a chave era jogada com tal displicência que sempre escorregava para o fundo, para o lugar mais inatingível pelas mãos apressadas. Encostou-se no carro e jogou a bolsa sobre o capô. Vontade de jogar tudo que as mãos tateavam e que não era o que procurava no chão. Inquieta, ficava incomodada com os olhares questionadores do passantes. Sentia-se impelida a quase justificar o motivo da demora, da procura. Sorria, como se buscasse compreensão.
Puxou! Entrou rapidamente e, antes de dar partida, assusta-se com duas batidas no vidro. Não teve tempo de reagir: apenas olhou e lá estava ele. Não queria o encontro àquela hora. Teve tempo de pensar: estou bem? Meus cabelos? Engordei desde a última vez que nos vimos?
Desajeitadamente tentou abrir a porta, e o gesto o assustou. Segundos intermináveis! Ele se afastou um pouco, esperou que ela descesse. Foi então que ela teve tempo de pensar que, por todo esse tempo, ele manteve um sorriso autêntico nos lábios. Acalmou-se.
Trocou dez ou doze palavras dessas que se trocam entre pessoas que não se veem há tempos. Depois, imaginou que devia estar corada, sentia-se assim. Ele continuou a perguntar sobre banalidades, amenidades. Ela respondia anestesiadamente. Tentou calcular uma resposta melhor. E notou que as perguntas tornavam-se cada vez mais banais. Ele quer realmente saber isso ou só está fazendo rodeios para algo mais?
Sentiu-se confusa.
Talvez cinco minutos tivessem se passado, ele se despediu, reforçando o convite para sábado. A turma toda iria (safety net?).
Ela sorriu, achou bonitinho.
Ficou vendo aquele moço bonito atravessar a rua e entrar no carro. Entrou no seu e foi embora.
Encontraram-se várias vezes depois disso, sempre com sorrisos nos lábios e amenidades nas conversas. O que se alterava era a vontade de ter o que falar para ele.
Certa vez ficaram a sós.
E, desde então, nunca mais foram sozinhos.
Puxou! Entrou rapidamente e, antes de dar partida, assusta-se com duas batidas no vidro. Não teve tempo de reagir: apenas olhou e lá estava ele. Não queria o encontro àquela hora. Teve tempo de pensar: estou bem? Meus cabelos? Engordei desde a última vez que nos vimos?
Desajeitadamente tentou abrir a porta, e o gesto o assustou. Segundos intermináveis! Ele se afastou um pouco, esperou que ela descesse. Foi então que ela teve tempo de pensar que, por todo esse tempo, ele manteve um sorriso autêntico nos lábios. Acalmou-se.
Trocou dez ou doze palavras dessas que se trocam entre pessoas que não se veem há tempos. Depois, imaginou que devia estar corada, sentia-se assim. Ele continuou a perguntar sobre banalidades, amenidades. Ela respondia anestesiadamente. Tentou calcular uma resposta melhor. E notou que as perguntas tornavam-se cada vez mais banais. Ele quer realmente saber isso ou só está fazendo rodeios para algo mais?
Sentiu-se confusa.
Talvez cinco minutos tivessem se passado, ele se despediu, reforçando o convite para sábado. A turma toda iria (safety net?).
Ela sorriu, achou bonitinho.
Ficou vendo aquele moço bonito atravessar a rua e entrar no carro. Entrou no seu e foi embora.
Encontraram-se várias vezes depois disso, sempre com sorrisos nos lábios e amenidades nas conversas. O que se alterava era a vontade de ter o que falar para ele.
Certa vez ficaram a sós.
E, desde então, nunca mais foram sozinhos.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Idolatria - ou - Oscar Wilde reloaded
O dia havia sido nublado. Sentiu por toda a tarde dores fortes de estômago. Ânsia. Uma ducha fria seria o remédio.
Entrou no quarto depois do banho. Havia se enxugado com cuidado, delicadamente. E partia para o ritual de se admirar. Era o seu maior admirador. Narciso moderno.
Eis que a dor ressurge. Gosto de bile. Olhou-se no espelho e viu tudo aquilo que se esforçou para não ver. Anos de adulação barata, tentativas de terapia e busca de equilíbrio com a natureza não o impediram de ver a escória que representava.
Aquela imagem ali, diante de si, era o avesso do perfeito. A corrosão moral, as sucessivas mentiras ao pé do ouvido, os fins que justificavam os meios.
Angustiado, buscou escapar daquele olhar desnudo que agora se voltava para a imagem pobre e imperfeita. Teve asco.
Não foi um arrependimento, pois se julgava esperto demais para sequer supor ter feito algo errado. Não havia, aliás, certo e errado no que fazia: havia o que queria e o que não queria.
Não conseguia mais evitar: via agora o fruto do meio, corrompido, determinado por ele. Vítima e algoz, paradoxalmente. Escravo do pensamento alheio, acumulador de conquistas vazias, agente do prazer pelo prazer. Um parnasiano.
Não conseguia desviar os olhos. Tornara-se um borrão.
Tontura. Não enxergava mais nada.
Acordou sabe-se lá quanto tempo depois.
A primeira sensação foi a do chão frio. Moveu lentamente os braços, buscou apoio. Aos poucos, pôde levar as mãos até a parede, buscando equilíbrio para se levantar. A visão ainda embaçada.
Diante do mesmo espelho, olhou-se. De repente, não podia mais se enxergar: via Dorian Gray.
Então percebeu.
Entrou no quarto depois do banho. Havia se enxugado com cuidado, delicadamente. E partia para o ritual de se admirar. Era o seu maior admirador. Narciso moderno.
Eis que a dor ressurge. Gosto de bile. Olhou-se no espelho e viu tudo aquilo que se esforçou para não ver. Anos de adulação barata, tentativas de terapia e busca de equilíbrio com a natureza não o impediram de ver a escória que representava.
Aquela imagem ali, diante de si, era o avesso do perfeito. A corrosão moral, as sucessivas mentiras ao pé do ouvido, os fins que justificavam os meios.
Angustiado, buscou escapar daquele olhar desnudo que agora se voltava para a imagem pobre e imperfeita. Teve asco.
Não foi um arrependimento, pois se julgava esperto demais para sequer supor ter feito algo errado. Não havia, aliás, certo e errado no que fazia: havia o que queria e o que não queria.
Não conseguia mais evitar: via agora o fruto do meio, corrompido, determinado por ele. Vítima e algoz, paradoxalmente. Escravo do pensamento alheio, acumulador de conquistas vazias, agente do prazer pelo prazer. Um parnasiano.
Não conseguia desviar os olhos. Tornara-se um borrão.
Tontura. Não enxergava mais nada.
Acordou sabe-se lá quanto tempo depois.
A primeira sensação foi a do chão frio. Moveu lentamente os braços, buscou apoio. Aos poucos, pôde levar as mãos até a parede, buscando equilíbrio para se levantar. A visão ainda embaçada.
Diante do mesmo espelho, olhou-se. De repente, não podia mais se enxergar: via Dorian Gray.
Então percebeu.
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